Funkse e Vaine falam sobre chegar ao top 3 do concurso João Rock e tudo que essa classificação significa para um projeto do interior mineiro
As últimas semanas para a banda uberlandense Funkse foram cheias de adrenalina e emoção. Junto com o rapper Vaine eles conseguiram se destacar entre centenas de artistas e chegaram ao top 3 do concurso de bandas do João Rock. O festival acontece no dia 1º de agosto em Ribeirão Preto (SP), mas não é dessa vez que o Funkse e Vaine vão abrir o evento, responsabilidade da Lizium (RJ). Mas mesmo não vencendo o concurso, os artistas celebram tudo que veio com essa nova porta que se abriu.
O Uberground traz uma entrevista com Vaine & Funkse sobre esse momento que tem tudo para virar um divisou de águas na carreira deles. Vaine (vocal), Isac Commiato (bateria), Matheus Jacob (vocal), Paulo Gomes (guitarra), e Pedro Gomes (baixo) queriam mesmo é que o João Rock vibrasse com o groove deles, como disse Jacob, mas aceitam de bom grado a experiência e a representatividade de terem chegado tão longe em um concurso tão tradicional.
UBERGROUND: Além da votação popular, critérios como originalidade foram considerados na seleção do Top 3. Nesse ponto, o que acreditam que mais fortaleceu vocês pra chegar nessa final?
ISAC: Acredito que a originalidade surge naturalmente quando artistas se expressam de forma genuína. Cada pessoa tem sua própria bagagem, suas referências e sua maneira de enxergar o mundo, e quando isso é colocado na música de forma honesta, o resultado acaba sendo único. No nosso caso, acho que isso fica muito evidente no DVD e em todos os trabalhos que lançamos. Existe uma verdade muito grande no que fazemos, tanto nas composições quanto na forma como nos apresentamos no palco. Nós nunca entramos em estúdio ou subimos no palco pensando em ser diferentes, mas sim em ser verdadeiros. Talvez tenha sido essa autenticidade que nos ajudou a chegar até a final.
JACOB: Simplesmente por que a gente faz algo que de certa forma vai contra o que é tendencia. E isso pra nós é importantíssimo, como se fosse a alma daquilo que criamos ao unir vários elementos do Hip-hop com o Funk/R&B e também somado a uma brasilidade destacada no ritmo, nas mensagens das músicas, e no nosso estilo de vida interiorana.
PAULO GOMES: Nosso DVD é uma explosão de expressões culturais em perfeita união. É o break, o DJ, os grooves funk/ disco e o Rap coexistindo em um show único, é a cultura hip hop com o Funk trazendo a galera pra dançar e pensar. Claro que esses movimentos são maiores que a gente, mas nós conseguimos traduzir de forma criativa e verdadeira, isso pode ter sido um ponto chave pra decisão de nos colocar na final.
VAINE: Acho que nosso som é genuíno, sem muita preocupação com tendência ou como isso vai ser entregue ao público. A gente realmente faz o som que gostamos de ouvir e que soa natural no nosso encontro. O resultado disso transmite verdade e acho que isso faz diferença quando o assunto é originalidade.
Vocês escolheram uma das músicas do DVD para inscrever? Qual foi e por que apostaram as fichas nela?

ISAC: Não houve a necessidade de escolher uma faixa específica, porque a inscrição foi feita com o DVD completo. Isso torna a classificação ainda mais especial para nós, porque entendemos que o projeto foi avaliado como um todo. Claro que a abertura, com ‘Pode Pular/Vamo Pro Rolê’, ‘Retrato’ e ‘Deus do Migué’, ajuda a apresentar a energia e a proposta do Vaine & Funkse, mas acreditamos que o que chamou atenção foi a experiência completa que construímos no DVD.
O que representa para vocês chegarem tão longe nessa seleção? Claro, querem vencer e tocar no João Rock, mas imagino que já podem considerar o top 3 uma vitória né?
VAINE: O que mais me deixa feliz nesse caminho da seleção é a ideia de reconhecimento do nosso trabalho. Com certeza chegar na final já é uma vitória, porque nos traz a sensação de que nosso progresso está sendo notado e premiado. O percurso do artista independente é pautado por muito esforço e pouca recompensa palpável. Nesse sentido o top 3 é uma mensagem clara de que todos os passos que nos desafiamos a dar num passado recente foi dado na direção certa.
JACOB: Pra nós com certeza já um enorme passo. Mas o maior tesão de tudo é ter essa oportunidade de mostrar nosso trampo no palco, da melhor forma que a gente sabe: ‘groovando’! E isso faz parte de quem nós somos. Esse lance de chegar e alegrar todo mundo ali fazendo geral dançar e cantar junto com a gente. O maior desejo é que o João Rock groove com a gente.
PEDRO BORGES: Chegar no top 3 do João Rock já é uma vitória gigante pra nós. E essa vitória não é só da banda. É de cada pessoa que compartilha nosso som, que vai nos shows, que votou e fez campanha junto. A gente só tá aqui porque tem uma galera que se conectou de verdade com o que a gente faz. A votação mostrou a força desse público que a gente vem cativando show por show, música por música.
Sabemos que o espaço na noite para música autoral não é dos melhores e isso não é uma realidade só de Uberlândia… como manter a veia criativa junto enquanto fazem os shows com repertório de outros artistas, que são também influência para vocês?
JACOB: Aa melhor forma é trazer originalidade pra tudo que a gente crie. Tanto nos shows cover quando no nosso show autoral. A melhor forma é dar vazão a nossa personalidade e a forma que a gente traduz a música tendo a nossa perspectiva.
PAULO GOMES: Sempre que vamos tocar repertório de outros artistas a música muda, voltando pra nossa linguagem, é algo intencional, mas inevitável muitas vezes. Com a Funkse, acontece uma liga muito forte, com as misturas de referências e gostos pessoais de cada membro da banda, daí começa impressão de uma identidade própria, e quando o Vaine entra com sugestões e com o ‘flow’, já toma outra cara. A partir daí a gente vai refinando cada música para imprimir nossa verdade.
ISAC: Montar um show com repertório de outros artistas também exige criatividade. Não se trata apenas de reproduzir músicas, mas de reinterpretá-las, criar arranjos, pensar na dinâmica do espetáculo e encontrar uma identidade dentro daquele repertório. O maior desafio talvez seja dividir energia, tempo e recursos entre esse trabalho e a produção autoral, especialmente em um mercado que muitas vezes remunera melhor um do que o outro.
Ao mesmo tempo, enxergamos esses processos como complementares. Muitas das versões e releituras que fizemos ao longo dos anos ajudaram a construir a sonoridade que hoje aparece nas nossas composições. Aprendemos muito estudando artistas que admiramos, mas também entendemos a importância de transformar essas influências em algo nosso.
E existe algo que nunca muda: a vontade de nos expressar. Seja tocando uma música nossa ou reinterpretando uma canção que fez parte da nossa formação, estamos sempre buscando comunicar algo através da arte. O espaço para a música autoral na noite pode não ser tão grande quanto gostaríamos, mas a demanda por autenticidade é enorme. Além disso, acreditamos que a cena autoral de Uberlândia e do Brasil como um todo é rica, diversa e talentosa. Talvez ela ainda não ocupe todo o espaço que merece, mas temos certeza de que está conquistando esse espaço cada vez mais e continuará crescendo.

Como Vaine e Funkse se complementam sem anular o melhor um do outro?
Acho que as duas linguagens são próximas, mas tocam em lugares diferentes e por isso conversam tão bem. A musicalidade do funk e do rap vem de um mesmo berço da musicalidade negra. A oralidade do rap conversa muito com a cabeça enquanto o instrumental da Funkse dialoga diretamente com o corpo. Tudo isso sem hierarquia ou juízo de valor entre as linguagens. Um potencializa o outro. (Vaine)
PEDRO BORGES: A gente se completa porque tem o mesmo DNA: verdade e pressão sonora.
PAULO GOMES: A liga entre Vaine Funkse é natural, começa pela proximidade do Funk com o Rap desde o começo das pistas com DJ em mil novecentos e bolinha, eles riscavam com os vinil que tinha groove, pra manter a galera dançando e a rima rolando. Além das músicas em colaboração conjunta, nos shows a gente gosta muito das mudanças de uma música para outra, além de deixar o show dinâmico pode soar quase como um manifesto ‘hip hop e funk tudo a mesma linhagem’ disse o Vaine em um desses shows que fizemos por aqui em Uberlândia.
Foto da capa: Felipe Vianna/Divulgação