Depois de mais de dez anos sem se apresentar em Uberlândia, o Pato Fu está de volta. A banda mineira está na programação do Festival Timbre com um show especial no sábado (8), em comemoração aos 30 anos de ‘Gol de Quem?’, álbum lançado em 1995 e considerado um dos marcos da trajetória do grupo. Em entrevista ao Uberground, a vocalista Fernanda Takai afirma que o reencontro com o público da cidade também simboliza a força de uma relação construída ao longo de décadas.
Na área externa do Teatro Municipal de Uberlândia, o espetáculo revisita o repertório do disco na ordem original antes de seguir para outros sucessos da carreira. Segundo Fernanda, essa escolha revela uma faceta importante do Pato Fu, marcada pela experimentação e pela liberdade criativa.
Fernanda Takai sobe ao palco ao lado do guitarrista, e também marido, John Ulhoa, do contrabaixista Ricardo Koctus, do baterista e percussionista Xande Tamietti e do tecladista Richard Neves, o caçula do grupo, que entrou em 2014 e fará sua primeira apresentação em Uberlândia.
“Faz muito tempo que não nos apresentamos em Uberlândia, mas sempre encontramos gente da cidade nos nossos shows pelo Brasil. Vibramos com o convite do Festival Timbre e acredito que será uma noite muito feliz de reencontro, tanto para quem já conhece a banda quanto para quem nunca nos viu ao vivo.”
Para uma boa banda não existe palco grande ou palco pequeno. Existe o palco. E para o Pato Fu esse é o melhor lugar para celebrar a música no seu estado mais puro. E a turnê de ‘Gol de Quem?’ tem presenteado a banda com uma plateia apaixonada e diversa.
“Temos aqueles que nos conhecem desde o início de carreira, que sabem tudo sobre a banda, sobre os discos… temos os filhos dessa geração. E ainda temos aqueles que nos conheceram pelo ‘Música de Brinquedo’ e hoje são jovens adultos.”
A artista refere-se ao álbum de covers de 2010, lançado pela gravadora do grupo, a Rotomusic Records, e completamente executado com instrumentos em miniatura e instrumentos de brinquedo. Ali, uma mistura de diferentes influências da banda, de Beatles a Tim Maia, de Rita Lee a Pizzicato Five.
A banda que nunca se acomodou
Embora o Pato Fu tenha muitas músicas no estilo que podemos chamar de ‘radio friendly’, ou seja, com grande apelo radiofônico, Fernanda Takai destaca que a banda nunca se limitou a essa modalidade. Segundo ela, ‘Gol de Quem?’ revela justamente o lado mais experimental do grupo.
Fernanda é grata por sucessos como “Sobre o Tempo”, porta de entrada para muitos fãs que depois descobrem canções como “Vida de Operário” e “And Now”, faixas que poderiam facilmente ter saído de discos completamente diferentes, com referências que vão da moda de viola ao noise alternativo.
“A primeira parte do show é exatamente o ‘Gol de Quem?’ executado na íntegra e na ordem do álbum. Depois vêm as músicas mais conhecidas. É interessante porque muita gente descobre ali que o Pato Fu sempre foi uma banda de experimentação, com canções diferentes entre si.”
Para a cantora, essa experiência ganha outra dimensão no palco. Em uma época em que a música é consumida principalmente pelas telas, ela acredita que o encontro entre artista e público continua sendo insubstituível.
“O espetáculo ao vivo é a melhor forma de viver a música. É um momento compartilhado e muito impactante. Acho que estar presente, vivendo aquilo junto, é um dos segredos da felicidade.”
Um coletivo chamado Pato Fu
Ao longo de mais de três décadas de carreira, o Pato Fu construiu uma identidade baseada no trabalho coletivo. Fernanda destaca que a convivência entre os integrantes sempre foi determinante para a longevidade da banda, mesmo com os projetos paralelos de cada um.
Fernanda conta que, durante a pandemia da Covid-19, essa cumplicidade ficou ainda mais evidente. Amigos que trabalham juntos há mais de três décadas seguem podendo contar uns com os outros, seja para ajudar a pagar um boleto atrasado, seja para oferecer uma carona nas horas mais difíceis.
“Minha escola é a banda. Sempre tivemos essa ideia de que, quando um precisa, o outro ajuda. Eu tenho minha carreira solo, os outros integrantes também desenvolvem projetos, mas o Pato Fu continua muito vivo porque existe esse compromisso coletivo e essa vontade de seguir criando.”
A força da música mineira
Nascida em Serra do Navio (AP), radicada em Belo Horizonte desde os 9 anos de idade, Fernanda Takai é mineira de coração e o Pato Fu faz parte de uma geração que ajudou a consolidar a cena musical do estado que ganha palcos por todo o país e mundo afora. A cantora celebra o momento vivido por Minas Gerais, que hoje reúne artistas de diferentes estilos em destaque no país, e tudo que veio antes.
“Temos muito orgulho de ser uma banda mineira. É muito bonito ver essa diversidade, do Clube da Esquina ao Sepultura, passando por Marina Sena, Djonga, FBC, Black Pantera e tantos outros. Quanto mais essa diversidade aparece, mais o público cresce.”
E por falar em Black Pantera, que também toca no Timbre no dia 9 de agosto, Fernanda demonstra uma admiração especial pelo trio de Uberaba, principalmente porque a filha, a artista gráfica Nina, de 23 anos, é muito fã da banda.
“Esses dias ela fez uma ilustração e usou uma música deles, que comentaram. Ela ficou tão empolgada e me disse: ‘mãe, hoje é o melhor dia da minha vida’. E a geração da Nina tem isso de ter diferentes referências de arte. Ela ama ouvir Black Pantera mas também adora Echo & Bunnymen, Devo, e isso eu acho muito rico”.
Representatividade e diversidade
Com 30 anos na estrada como Pato Fu, Fernanda Takai celebra que hoje a presença feminina na música seja maior. Ela afirma que quando começou era difícil encontrar outras mulheres nesse meio, e não fala apenas daquelas que estão no palco, mas também daquelas que atuam nos bastidores.
A cantora ficou feliz em saber que o festival Timbre, desde 2018, tem uma série de diretrizes voltadas para a inclusão e equidade, começando por ter 50% de artistas femininas no line-up e também representantes da comunidade LGBT+.
“Podemos considerar isso uma conquista, sim, mas não podemos nos acostumar porque é muito difícil se destacar não só nesse espaço da arte em si, mas em qualquer ramo de atividade ou profissão. Se a gente não cobrar para que essa representatividade seja valorizada é muito fácil retroceder”.
Para Fernanda, todo cidadão pode ser parte dessa transformação na hora de escolher as empresas que têm políticas de inclusão. Ela também acredita que festivais têm um papel importante na formação de novas plateias justamente por aproximarem artistas de universos distintos.
“Os festivais educam o público ao cumprirem um papel que vai além do entretenimento. Ao reunir artistas de diferentes estilos e gerações, ampliam o repertório do público e ajudam a fortalecer toda a cadeia da música brasileira.”
O Pato Fu se apresenta no Festival Timbre no sábado (8). Para saber o line-up completo e mais informações sobre o festival clique aqui.