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Catsu 2026: criatividade do público se mantém como diferencial no sucesso da convenção

Quem circula pela Catsu, em Uberlândia, talvez tenha a impressão de estar caminhando por dentro de um universo onde personagens de filmes, séries, animes, games e desenhos ganharam vida. Uma infinidade de cores, referências, performances, fotografias e, principalmente, muita gente disposta a brincar com a própria criatividade. Há cada ano, mais pessoas se permitem viver por algumas horas sob outra pele.

Mas o que torna essa experiência tão interessante não é o tamanho da produção ou quanto foi gasto para chegar até ali: é a relação de cada pessoa com o personagem, com o momento. O Uberground separou algumas histórias da edição 2026.

O público da Catsu neste ano foi visivelmente superior ao de 2025, é perceptível o quanto o evento ganha força com o engajamento do público que sai das redes sociais para o presencial, e esse é o ponto chave no sucesso de um evento. Cosplayers (profissionais ou amadores), dubladores e artistas convidados mostram que o encanto do evento vai além de fantasias elaboradas ou grandes produções

Para alguns, o cosplay é a oportunidade de finalmente vestir alguém que faz parte da memória afetiva desde a infância. Para outros, é uma brincadeira entre amigos. Há ainda quem descubra, por meio desses personagens, uma profissão, uma forma de expressão ou um caminho para vencer a timidez.

Nos dias 15 e 16 de agosto, no Castelli Master, essas diferentes experiências ajudaram a construir um dos elementos mais bonitos do evento: um público que não está ali apenas para assistir; mas para transformar.

A Outra Mãe

Beldam inspirou a estudante de Medicina Veterinária (Adreana Oliveira)

Ela é uma estudante de Medicina Veterinária de 21 anos, estagiária de multinacional, mas na Catsu, pela primeira vez, foi Beldam, a mãe ‘do outro lado’ de Coraline. Fã da franquia desde criança, a jovem sempre dizia que participaria da convenção, e o plano acabava ficando para o outro ano. Dessa vez, deu certo.

A escolha ajuda a mostrar que cosplay também é identificação, não um hit momentâneo. O personagem pode conversar com uma fase da vida, com uma característica da personalidade ou despertar um encantamento difícil de explicar. Vestir aquela figura por algumas horas é também uma forma de experimentar algo de si.

“Eu sou apaixonada pelo universo de Coraline desde criança, e minha escolha pela ‘outra mãe’ é porque sempre achei ela uma personagem particularmente interessante e tem uma estética que sempre me agradou”, contou.

A estudante explicou que não foi muito difícil montar o personagem, não levou mais que três horas para ficar pronta e a bonequinha de Coraline deu um toque especial à produção.

Donatello do Udão

E não é preciso uma grande investimento para se divertir e ganhar fãs na Catsu. O funcionário público Arryus César Borges de Oliveira, de 24 anos, gastou menos de R$ 100 para virar um Tartaruga Ninja do cerrado. Ele e os amigos encontraram algumas referência dentro do conceito de ‘cospobre’ na internet e resolveram entrar na onda.

A diversão começou na hora da produção do traje. Para Arryus começar com algo simples é uma experiência e faz entender o quanto precisaria investir em algo que ele define como ‘impecável’.

“Você pode fazer só um teste ou uma coisa que acha engraçada. Já é um começo. Você pode vir e sentir o tanto que é divertido circular pela Catsu e receber o carinho da galera que não se importa com quanto você gastou para montar o seu visual, daí, quando tiver mais condição você pode fazer algo mais elaborado”, disse.

Primeiro vem a coragem. Depois, a experiência.

Ao experimentar um personagem, a pessoa também aprende a interagir com o público, perde um pouco da timidez, descobrindo novas novas possibilidades.

Cosplays mais elaboradas podem criar a impressão de que existe um padrão a ser alcançado. Na prática, a Catsu mostra o contrário: há espaço para a produção sofisticada, mas também para a gambiarra criativa, a piada interna que reúne os amigos.

Arryus se divertiu com seu ‘cospobre’ de Tartaruga Ninja (Adreana Oliveira)

Um anjo original

Dante Valeri levou uma criação original para a Catsu (Adreana Oliveira)

A originalidade também tem espaço em um evento como a Catsu. Aos 15 anos, pela primeira vez Dante Valeri levou o seu anjo para a Catsu. O cosplay todo desenhado e feito por ela começou a ser produzido em junho, ao chegar na Catsu foram quase três horas até ficar pronta. Esse anjo branco com dourado atraia olhares por onde passava.

“Eu me inspirei em outros personagens para criar o meu que vem trazer algo bom para o mundo mesmo tendo sofrido bastante”, explicou Valeri.

Mas é claro que os cosplayers profissionais também são grandes atrativos da Catsu, e merecem todo o mérito pelo trabalho e pela simpatia a cada parada para atender um pedido de foto.

Catsu 2026 – Fotos: Adreana Oliveira

Dubladores: os ídolos

A relação entre público e personagem ganha outra dimensão quando entra em cena a dublagem. O dublador Francisco Júnior conhece bem esse caminho. Sua própria relação com a cultura pop começou ainda criança, diante da televisão.

Ele cresceu assistindo a filmes com os pais, especialmente produções com os atores Jean-Claude Van Damme e Chuck Norris. Na época, não sabia quem eram os profissionais responsáveis pelas vozes, algo que seu pai não deixava passar despercebido.

Em 1994, durante o boom de ‘Cavaleiros do Zodíaco’, Francisco encontrou em uma revista ‘Herói’ uma matéria sobre dubladores. Tinha cerca de oito anos e descobriu ali que aquela poderia ser uma profissão.

A vontade permaneceu, embora a vida o tenha levado por outros caminhos antes de finalmente chegar à dublagem. Trabalhou no Banco do Brasil, passou pelo Ministério Público do Rio de Janeiro e chegou perto de seguir carreira como sargento. Paralelamente, continuou ligado à atuação, fazendo teatro, televisão e uma participação na novela ‘Os Mutantes – Caminhos do Coração’, exibida pela Record entre 2008 e 2009. Nessa mesma época, começou a se dedicar mais à dublagem.

Em 2014 saiu do Rio de Janeiro rumo a São Paulo, onde vive até hoje. Entre os trabalhos que marcaram sua trajetória está a dublagem de Jason Momoa como ‘Aquaman’, que ele considera um divisor de águas. Quando começou a trabalhar com o personagem, tinha cerca de 700 seguidores no Instagram, e o número subiu astronomicamente. O Crocodile, de ‘One Piece’, também está entre os papéis marcantes. Mais recentemente, dublou Kan Yaman em novelas turcas como ‘A Sonhadora’, o que aumentou sua base de fãs adultos.

Para construir cada personagem, Francisco procura entender o trabalho do ator original e encontrar uma maneira de transportar sua interpretação para o português. É um exercício de observação constante.

“Se você pretende seguir nessa profissão preste atenção principalmente à interpretação: observar uma cena, perceber o tom, comparar diferentes versões e entender como o ator constrói aquele momento é fundamental para um bom resultado. E tem que ser algo natural, como a gente está conversando aqui.”

Um exemplo que considera especialmente bem-sucedido é ‘Chave’s, em que a dublagem se tornou tão natural e incorporada à experiência brasileira que o espectador muitas vezes sequer pensa que está assistindo a um conteúdo dublado.

Quando um personagem vira marca

A dubladora Feh Dantas, mais conhecida como Feh Dubs, também experimentou uma conexão direta com o público. Durante a Catsu, os fãs gritavam seu nome por onde passava.

Ela dá voz a Sol, de ‘Digital Circus’, uma personagem que aparecia pouco na produção, mas que Feh conseguiu transformar em uma marca de seu trabalho. A identificação do público com aquela dublagem fez com que uma participação pequena ganhasse uma dimensão muito maior.

Aos 20 anos, Feh também percebeu outro aspecto importante desse universo ao perguntar ao público presente quem estava ali acompanhando os filhos e já conhecia seu trabalho. Menos da metade levantou a mão.

A situação abre uma discussão que ultrapassa o evento: a necessidade de diálogo entre famílias e filhos diante de uma era digital que hoje ocupa um espaço enorme na vida de crianças e adolescentes.

O pai da própria Feh contou que, no começo, não entendia bem aquele universo e imaginava outro caminho profissional para a filha. Com o tempo, porém, passou a acompanhar mais de perto seu trabalho e percebeu que era ali que ela estava feliz.

A experiência mudou sua perspectiva. Na Catsu, ele aproveitou para deixar um recado aos pais: é importante apoiar os filhos, mas, antes disso, é preciso ouvi-los e prestar atenção aos desejos e interesses que demonstram.

É uma reflexão que combina com o espírito da Catsu. Para quem está de fora, determinados personagens, jogos, animes ou referências são apenas entretenimento. Para quem está envolvido, entretanto, eles podem representar amizades, descobertas, possibilidades profissionais e até uma forma de compreender melhor a própria identidade.

Staff e serviço

Com um público majoritariamente infanto-juvenil, é importante seguir as regras, desde o cuidado na conferência dos documentos na entrada à observação da faixa etária para os jogos até a organização da fila quilométrica debaixo do sol quente, agilizando o que é possível agilizar.

Claro, que sempre há o que melhorar, como o ponto de hidratação que estava constantemente com grandes filas e no final do primeiro dia já precisava ser virado para encher as garrafinhas. A questão da acessibilidade para cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida também pode ser melhorada no Castelli principalmente no trânsito entre um prédio e outro.

De positivo, comparado a outros eventos, os preços praticados pelos fornecedores da área de alimentação da Catsu podem ser considerados um bom custo-benefício. A área dos banheiros, pelo menos do feminino, também tem manutenção constante.

Para que toda essa experiência seja positiva, há um trabalho de bastidores que muitas vezes não aparece nos registros fotográficos, mas é essencial para a experiência: o do staff.

Na edição 2026, a equipe da Catsu novamente se destacou pela atenção ao público, pelo cuidado e pela disposição para orientar e ajudar. Em um evento que reúne crianças, adolescentes, famílias, cosplayers, artistas, profissionais e fãs de diferentes universos, esse acolhimento é fundamental, assim como respeito que observamos no tratamento do staff com o público durante todo o evento.

Área externa do Castelli Master na Catsu 2026 (Adreana Oliveira)

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