Loading…

Resenha: Festival Timbre 2026

Mais uma edição do Festival Timbre movimentou Uberlândia em um fim de semana de calor escaldante e um sol para cada um na esplanada do Teatro Municipal. Mas isso não seria suficiente para afastar o público, um dos mais diversos entre os festivais que a cidade recebe a cada ano. O Uberground mais uma vez marcou presença e traz alguns momentos de destaque de 2026 entre os shows cobertos pelo site.

BLACK PANTERA

Muitos que chegaram cedo no sábado (8) buscaram abrigo nas escassas sombras à direita do palco. Mas, para os fãs do Black Pantera, que abriu o festival às 14h, foi no asfalto quente que a roda girou.

O tempo só não estava mais quente do que o trio uberabense que chegou fervendo e mostrando o que o Brasil inteiro vem acompanhando: a ascensão de uma banda mineira coesa em sua proposta de fazer música que gera reflexão.

A passagem do grupo por Uberlândia aconteceu uma semana antes do lançamento de seu quinto álbum, ‘Continental’, que chegou às plataformas em 21 de agosto, aniversário do contrabaixista e vocalista Chaene da Gama que ao lado do irmão, Charles da Gama, guitarrista e vocalista, e do baterista Rodrigo ‘Pancho’ Augusto formam o Black Pantera.

No repertório, músicas já aclamadas pela crítica e pelo público, como ‘Candeia’, ‘Fogo nos Racistas’, ‘Padrão é o Caralho’, ‘Provérbios’ e a sempre impactante ‘Tradução’, na qual dona Guiomar, mãe de Charles e Chaene, e dona Elvira, mãe de Pancho, representam a força e a luta da mulher brasileira.

Mas eles também mostraram ‘Start the Game’, novidade que está no álbum recém-lançado.

O trio provou ainda que sabe deixar o público à vontade, inclusive com algo que tem se tornado tradição em seus shows: a ‘roda das minas’. É bonito ver a juventude se unindo pela música e pelo conceito. Dá esperança de que ainda podemos deixar este país melhor.

AJULLIACOSTA

Ajulliacosta durante show no Festival Timbre 2026 (Adreana Oliveira)

No palco principal, a rapper Ajulliacosta já pegou um público um pouco maior que o Black Pantera. Ela cantou, dançou e deu uma aula de empoderamento feminino acompanhada de suas bailarinas.

Com músicas dos dois álbuns, ‘Brutas Amam, Choram e Sentem Raiva’ (2023) e ‘Novo Testamento’ (2025), a cantora despertou o interesse de uma audiência que talvez não tenha rap na playlist diária.

Ajulliacosta recordou de ter feito seu primeiro show em Uberlândia há cinco anos e comentou estar feliz por voltar justamente no Timbre. Para ela, um festival com um line-up tão diversificado é uma ótima oportunidade para tornar sua música mais conhecida.

“Eu amo música brasileira, e esses festivais misturam, trazem muito de Brasil”, disse a cantora, muito simpática durante o atendimento à imprensa.

FRESNO

Fresno em show no primeiro dia do festival Timbre, em Uberlândia (Adreana Oliveira)

Os guris de Porto Alegre há muito não se apresentavam em Uberlândia. Eles amadureceram, assim como o público, que compareceu em peso para esse retorno ao pôr do sol na esplanada do Teatro Municipal.

Tudo estava em harmonia: o som, as luzes e aquele cair de tarde no cerrado, bem propício à alegria e à melancolia que tomaram conta do espaço ao longo do show.

Lucas Silveira (vocal e guitarra), Vavo (guitarra) e Thiago Guerra (bateria) tiveram o reforço de Lucas Romero nos teclados, Ana Karina Sebastião no baixo e Michelle Abu na percussão.

No setlist, as músicas do álbum que dá nome à turnê, ‘Carta de Adeus’ (2025), foram maioria. Mas o show também teve seu momento nostálgico, com canções de álbuns anteriores que marcaram a adolescência de boa parte do público. ‘Quebre as Correntes’, de ‘Ciano’, que acaba de completar 20 anos, fez surgir algumas lágrimas.

“A gente se sente em casa em qualquer lugar que vocês estão”, disse Lucas em uma das interações com o público.

Depois do show, durante o atendimento à imprensa, Lucas, Gustavo e Vavo ainda estavam com a adrenalina lá em cima e tentavam puxar pela memória quando havia sido o primeiro show da banda em Uberlândia, há 20 anos.

“A gente fez Uberlândia, Goiânia e Brasília. No domingo, o Brasil foi campeão do mundo”, lembrou Vavo.

“E, desde então, o Brasil não foi mais campeão do mundo”, completou Lucas.

Nesses quase 30 anos de carreira, pedi à banda uma avaliação sobre o cenário do início e o de agora, se tem algo que destacariam, para melhor ou para pior.

“O pior é que a gente tá mais velho e é mais difícil fazer as coisas, mas, em contrapartida, a gente fica vacinado em relação às coisas da estrada. Na real, acho que nada é pior, porque sinto que, no caso da Fresno, existe uma reta sem fim, onde a gente vai primeiro descobrindo o que gosta e, principalmente, conseguindo crescer de uma maneira saudável enquanto banda”, disse Lucas.

Para eles, neste momento, é preciso saber organizar a agenda para conseguir se dedicar aos shows e também à rotina de cada um, principalmente às famílias.

“Não tem muito o que reclamar, não. A gente vive um sonho bem realizado. Conhecemos muitas bandas, de grandes amigos que simplesmente não conseguiram fazer seu sustento da música. Então, só de a gente conseguir, a gente passou numa peneira que pouca gente passa. E fazer isso com a música que acreditamos é uma vitória”, disse Lucas.

Ele comentou ainda que a banda se reúne e entre eles fazem as escolhas necessárias para os projetos.

“Nós decidimos quando e como vamos lançar um single ou um álbum, fechamos o orçamento e assim acabamos tendo um negócio muito livre. É algo que a gente consegue se ver fazendo até desistir, até morrer”, explicou Lucas.

Vavo puxou algo da realidade que os 40+ entendem bem.

“Antigamente a gente conseguia dormir à 1 da manhã, acordar às 4 para pegar o voo e estava tudo certo. Hoje não dá mais! A gente começa a cair dormindo nos cantos…”

“Não conseguimos nem ficar de ressaca mais, mal conseguimos beber nos shows”, disse Guerra.

E resumiram que, ‘tirando a velhice, tá tudo certo’. Vida longa aos jovens senhores da Fresno!

ALCEU VALENÇA

Alceu Valença levou a turnê ’80 Girassóis’ para o palco do Timbre (Adreana Oliveira)

Alceu Valença marcou presença no palco do Festival Timbre com o show da turnê ’80 Girassóis’. O artista foi recebido por aproximadamente cinco mil pessoas, que cantaram, dançaram seus grandes clássicos e ouviram muitas histórias. Ele fez questão de deixar uma dúvida no ar.

‘Sou mentiroso como toda artista é mentiroso… mas sou o único que admite”, brincou ele ao avisar que não sairia para o bis que estava por vir, só encenaria junto com a plateia.

De ‘Roque de Repente (Que Grilo Dá)’, ‘Estação da Luz’ e ‘Flor de Tangerina’ a ‘Táxi Lunar’, ‘La Belle de Jour’ e ‘Anunciação’, Alceu Valença mostra que intensidade e talento vão além da idade.

O artista foi anfitrião de uma viagem pela música brasileira, cheia de referências garimpadas ao longo de uma história que saiu de Pernambuco para o mundo. A riqueza de seu repertório fala por si.

GLORIA GROOVE

Gloria Groove no Timbre (Adreana Oliveira)

A primeira noite do Timbre foi encerrada por Gloria Groove. Para os fãs, uma oportunidade de estar mais perto da musa, e eles capricharam no visual. Vê-los pela esplanada do Municipal foi um verdadeiro presente.

Para quem não acompanha tanto essa cena, foi uma oportunidade de conferir a potência vocal e o talento de Gloria, acompanhada por uma banda de músicos que transformou o espaço em uma enorme pista de dança.

Uma artista completa, no palco ela canta, dança, interpreta e tem uma presença cativante e carismática capaz de prender a atenção de qualquer pessoa disposta a admirar uma boa produção.

DIA 2 – DOMINGO, 9 DE AGOSTO

O Uberground chegou ao Teatro Municipal de Uberlândia um pouco mais tarde no domingo (9) de Dia dos Pais.

PATO FU

Pato Fu no aguardado retorno a Uberlândia em show no domingo (9), no Timbre (Adreana Oliveira)

Na sequência, vindo de Belo Horizonte, o Pato Fu recebeu os repórteres no mesmo espaço, com a simpatia de sempre. A entrevista para o Uberground você pode ler aqui.

No dia do show, fiz uma pergunta para a banda: como têm uma ligação forte com o audiovisual, existe a previsão de contar esses 30 anos de história do Pato Fu em um longa-metragem?

“Eu sei que tem uma pessoa escrevendo um livro sobre o Pato Fu. Mas eu sou de sempre acabar a história primeiro, ou seja, quando a gente morrer, alguém faz algo, porque com a gente aqui é difícil… A gente vai querer colocar só as coisas boas”, brincou Fernanda Takai.

O show comemorativo dos 30 anos de ‘Gol de Quem?’ era inédito em Uberlândia, onde a banda não se apresentava havia 17 anos. E esse retorno reuniu fãs do início da carreira, os mais novos que chegaram a partir de ‘Música de Brinquedo’ e também quem estava ali esperando outras atrações.

“Tem camiseta aí que tem pelo menos 25 anos”, observou Fernanda Takai do palco.

Ao meu lado, na grade, um rapaz comentou: “Nossa, as camisetas são mais velhas que eu”.

Foi bem nesse clima que o Pato Fu trouxe músicas que embalam gerações. Sem o baixista Ricardo Koctus, que se recuperava de uma pneumonia, Fernanda Takai, John Ulhoa, Xande Tamietti Richard Neves contaram com Thiago Simões, ou ‘o rapaz do dread’ no baixo.

Fernanda comentou sobre as diferentes gerações e estilos de artistas que se encontram nesses palcos.

“Nós somos meio que os Patossauros perto de artistas novinhos em folha que estão aí, e isso é muito bom”, disse Fernanda Takai ao agradecer o convite para o festival.

Ela também jogou pão de queijo para os fãs.

“Tá muito bom, viu? É o que estão servindo no camarim dos artistas.”

E dá-lhe música boa: ‘Mamãe Ama é o Meu Revólver’, ‘Vida de Operário’, ‘Ando Meio Desligado’, ‘Made in Japan’ e ‘Capetão 66.6 FM’. Muita emoção também em ‘Canção Pra Você Viver Mais’ e ‘Perdendo Dentes’.

O Pato Fu mostra que música boa é atemporal e que, quando o artista é livre para criar, o resultado vai além de um estilo que se enquadra em uma única prateleira.

PALCO SESC

No palco Sesc a cantora Bruna Nery e a mestre de cerimônias Iusley Da Mata (Adreana Oliveira)

Mais uma vez, o Palco Sesc marcou presença no Festival Timbre com apresentações de rap, hip hop e trap. DJs e MCs de Uberlândia e região mostraram seu trabalho para um público flutuante, que se concentrava em frente ao palco, ao lado, onde trabalhos de grafite eram realizados em tempo real, e também para quem descansava na arquibancada.

Essa é uma cena que tem crescido com profissionalismo em Uberlândia, e ter esse espaço fortalece o segmento e os artistas e DJs selecionados.

MARCELO FALCÃO

Em 2024, Marcelo Falcão não subiu ao palco do Timbre por conta de uma forte tempestade que caiu sobre a cidade. Acabou se apresentando no D’Boche porque “precisava tocar”.

Desta vez, sem imprevistos, chegou ao festival com tudo e com a novíssima turnê ‘O Legado’.

Com o DJ Negralha e uma big band, Falcão brilhou no Timbre. ‘O Legado’ também é o nome do álbum lançado pelo artista em 2025. As novas ‘Legado’, ‘Refletir (Resista)’ e ‘Vitória’ se juntaram a clássicos d’O Rappa, como ‘Pescador de Ilusões’, a versão de ‘Súplica Cearense’, ‘Vapor Barato’ e ‘Minha Alma’.

GERAL

  • O Festival Timbre se mantém fiel à proposta de diversidade e inclusão que está no DNA do evento. Na edição de 2026, porém, no primeiro dia, a área dedicada às pessoas com deficiência (PCD) não estava cumprindo seu propósito. O espaço também foi utilizado por fotógrafos, e foi possível perceber a presença de pessoas sem deficiência na área, que ficou superlotada e gerou desconforto para quem realmente precisava estar ali. No dia seguinte, o problema foi corrigido pela organização. Porém, não foi viabilizada uma área de passagem para os fotógrafos, que, teoricamente, em shows e festivais, têm as três primeiras músicas de cada apresentação para trabalhar em uma área específica.
  • Em 2026 foi criado também o ‘canto conforto’, que pegou metade da frente do palco. Só o tempo dirá se foi ou não uma boa estratégia, que, em tempo, já é adotada, com outros nomes, em outros eventos e festivais.
  • Vale citar também a estreia acertada dos projetos que fizeram as apresentações nos intervalos dos shows do palco principal: Dani Salci e Projeto Nêga Doce no sábado e Tropicaya e Michz & Oric. Todos tinham sets que dialogavam com a plateia.
  • Intérpretes de Libras no palco é um grande acerto e com o tempo percebemos como esses e essas profissionais estão se superando na entrega de um lindo trabalho
  • A homenagem a Beto Oliveira em uma projeção emocionou amigos e parceiros do fotógrafo que faleceu dias antes do festival.

Deixe um comentário