Um espetáculo para ver, ouvir e sentir
As diferentes intensidades do piano de cauda, um repertório definido há várias mãos, uma gama de estilos de dança com toda sua robustez e beleza. É o encontro dessas duas belas artes que o espectador poderá conferir no espetáculo “Com Passos: Um Encontro Entre Música e Dança” , que será apresentado na quinta-feira (17), às 20h, no Teatro Municipal de Uberlândia.
A professora de piano Mariana Mendes e a tradicional escola UAI Q Dança se juntam nesse projeto protagonizado por seus respectivos alunos. A plateia pode esperar por música popular, música erudita, jazz, sapateado e dança contemporânea desenrolando-se e encontrando-se de forma única no palco do teatro que carrega nos traços as curvas de Oscar Niemeyer (1907-2012).
Arte em estado puro, dividida e compartilhada ao mesmo tempo que de certa forma, no coletivo, será vivenciada de maneira muito particular por cada pessoa na plateia. A expectativa é que as pessoas se desconectem de tudo que está do lado de fora do teatro quando soarem os três sinais sonoros e a partir daí aproveitam a experiência com diferentes sentidos.
O Uberground conversou com Mariana para saber um pouquinho mais sobre a formatação desse espetáculo, a interação entre alunos e professores e dos desafios enfrentados no processo. Acompanhe logo após as informações do espetáculo.
SERVIÇO
O QUE: “Com Passos: Um Encontro Entre Música e Dança”
QUEM: Alunos da pianista Mariana Mendes e da escola UAI Q Dança
ONDE: Teatro Municipal de Uberlândia (Av. Rondon Pacheco, 7.070, Tibery)
QUANDO: quinta-feira, 17 de julho
HORÁRIO: 19h30
INGRESSOS: R$ 50 + taxas disponíveis no Megabilheteria ou na bilheteria do teatro, sem taxa, sujeito a lotação
DURAÇÃO: 60 minutos
CLASSIFICAÇÃO: livre
Pianista acredita que na era da ‘digitalização’, o estar junto e próximo é uma ‘preciosidade’
Na correria e “digitalização” que vivemos hoje, o estar junto e próximo se torna uma preciosidade e uma forma de acentuar as relações e trocas humanas.

UBERGROUND: Em sua trajetória como professora, diante da realidade acelerada em que vivemos, quais os principais desafios na hora de montar um espetáculo como esse, reunindo música e dança, nesse espaço dos professores compartilhados com os alunos?
MARIANA MENDES: Apesar de ter alguns poucos alunos online, moradores e outras cidades, mantenho minha prática profissional incentivando a modalidade presencial. Na correria e “digitalização” que vivemos hoje, o estar junto e próximo se torna uma preciosidade e uma forma de acentuar as relações e trocas humanas. Tenho uma relação próxima com meus alunos, uma relação de amizade, quase familiar. Diante desse contexto, já é do nosso costume termos uma aula mais despojada, em que tocamos e cantamos juntos, às vezes com gravações, e também compartilhando externamente o que tem sido aprendido. Já fizemos outras apresentações em teatros, mas nesse ano o desafio foi associar nossa prática musical junto com a dança, para assim fazermos um espetáculo único e interdisciplinar. A ideia do espetáculo surgiu no ano passado e desde então nos preparamos para lidar com as dificuldades técnicas no tocar piano para outras pessoas dançarem. Isso exige concentração e preparação únicas. Felizmente os alunos sempre estiveram abertos para se arriscar nessa nova aventura, abrir mão de algumas coisas e se disponibilizar para ensaios, o que tornou o processo mais fácil.
A escolha do repertório e a montagem das coreografias também foi algo coletivo, criado entre mestres e aprendizes? Fale um pouco desse processo de criação.
Desde o início a proposta foi que a Uai Q Dança escolhesse o repertório a partir das músicas que eles já tinham coreografia pronta, para depois eu fazer a distribuição para meus alunos. No decorrer do processo acabamos sugerindo músicas para eles coreografarem. Então, a escolha do repertório foi feita por ambas as partes. Algumas das coreografias são improvisos por parte dos dançarinos, o que traz leveza para o processo, já que algo muito marcado poderia se tornar difícil para os alunos de música manterem perfeitamente o andamento e versão ao vivo. Do lado de cá, os arranjos para as músicas foram ou montados em coletivo por mim e os alunos ou feitos de acordo com a gravação da versão original da música. Do lado da Uai Q Dança o processo foi parecido, algumas músicas foram coreografadas em coletivo, orientadas por professor, e outras foram feitas de forma independente pelas dançarinas envolvidas. Acho que essa multiplicidade de processos de criação faz o espetáculo mais dinâmico para o público.
Fale um pouco da importância de se apresentar em um palco, como o do Teatro Municipal, para esses jovens que podem estar começando a pensar em seguir na carreira artística.
A Uai Q Dança já vem fazendo espetáculos anuais no Teatro Municipal, sobretudo com banda acompanhando ao vivo, então pra eles não é uma novidade. Para minha classe, entretanto, se trata da primeira vez que todos se apresentação no Teatro Municipal e para alguns deles a primeira vez que tocarão em um teatro e em um piano de cauda. Tenho uma classe de mais de 20 alunos, formada por jovens adultos, com idades entre 25 e 60 anos (com exceção do Victor, nosso caçula de 8 anos), que fazem aula há menos de 4 anos. Para muitos deles, aprender piano (ou retomar o estudo) era um sonho quase inalcançável, devido a correria da vida adulta, das responsabilidades de cuidar da casa e da família e a visão de que é um instrumento caro, difícil e pouco acessível. Sinto muita alegria ao pensar que eles tiveram esse ato de coragem em se arriscar a aprender algo novo e em se apresentar publicamente. Eu como pianista e professora nunca vi o Teatro Municipal receber uma apresentação assim de alunos de música, muito menos de piano. Nem durante a minha graduação em música foram levados tantos alunos para de apresentarem nesse espaço. Enxergo que, infelizmente, acaba sendo um espaço utilizado para artistas de fora e/ou de nível profissional e pensar que meus alunos estão ocupando esse espaço é algo gratificante. Acho que esse espetáculo mostra que tudo é possível, que nunca é tarde, afinal como diz o trecho da música colado na parede da nossa sala, acima do piano: “Os sonhos não envelhecem” (Clube da Esquina n.2 – Milton Nascimento e Lô Borges, 1972).
Foto da capa: Retratos da Jisa