Dublador Yuri Chesman fala sobre carreira e personagens marcantes na Catsu em Uberlândia
Um menino de 6 anos em um estúdio, em silêncio absoluto, por horas e horas a fio. Parece incomum para uma criança nessa fase, em que costumam ser muito ativas e gostam de interagir. Mas “o filho do Renato Márcio” ficava totalmente envolvido assistindo às sessões de gravação do pai, dublador, no início dos anos 1990. Anos mais tarde, em “Naruto”, pai e filho trabalharam juntos: Renato Márcio como Shukaku e Yuri Chesman como Gaara.
“Eu nem tinha vontade de dublar, eu queria ver as pessoas que davam vozes para aqueles personagens que eu gostava. Naquela época era comum mulheres dublarem crianças, e a dubladora faltou. ‘Chama o filho do Renato pra ele fazer esse garoto’. E aí começaram a me chamar outras vezes. Desde então, não parei mais”, contou Chesman durante sua participação na Convenção de Animês e Tokusatsus de Uberlândia (Catsu), em Uberlândia (MG), na tarde de sábado (23).
Aquele menino já soma 34 anos dedicadas a essa arte cujos protagonistas foram, por muito tempo, “invisíveis”. O que muitos lembramos, pelas obras mais antigas, é o nome de um dos estúdios pioneiros no Brasil: “versão brasileira, Herbert Richards”. Se hoje Chesman é um rosto conhecido nacionalmente, é graças a uma lei que obrigou a inclusão dos nomes dos dubladores nos créditos das produções audiovisuais no Brasil, a Lei nº 12.091, de 1999 — ou seja, uma conquista recente.
“É importante a gente ter visibilidade porque eu também sou um ator. Diferente da pessoa que está aparecendo, eu escolhi trabalhar na atuação com a voz. Até uns 10, 12 anos atrás, eu recusei convites para eventos como esse. Me questionava por que as pessoas gostariam de me ver, tirar uma foto comigo. Mas alguém me disse que talvez eu não soubesse o impacto que um personagem para o qual emprestei a voz teve na vida de uma pessoa. Agora percebo o quanto é importante. Estar nos eventos é uma forma de agradecer aos fãs”.
Eventos como a Catsu e a CCXP (maior feira de cultura pop do mundo, realizada em São Paulo) também têm um papel essencial nesse reconhecimento. Em 2025, na CCXP, os dubladores japoneses de “Demon Slayer”, Takahiro Sakurai (Giyu Tomioka) e Kengo Kawanishi (Muichiro Tokito), além do brasileiro Daniel Figueira (voz de Tanjiro Kamado), foram ovacionados no auditório Thunder.
Na Catsu, Chesman fez a alegria dos fãs do animê com um dos heróis mais celebrados dos últimos anos (Tanjiro), ao trazer um pouco da saga na qual dubla o demônio Rui.
“No caso do Rui fiquei feliz por ter sido a escolha do diretor de dublagem, que é um profissional imprescindível na indústria. Estávamos na pandemia e eu sabia que era um personagem visceral, mal, com uma pequena participação, mas que tinha uma razão para essa maldade. Quando surgiu o ‘One Punch Man’ eu fui convidado para dublar o Genos. E eu fui reprovado! Porém, um dos diretores pediu para que eu fizesse o teste para o Saitama, e ficaram satisfeitos com o que ouviram”, compartilhou.
Foi também o diretor de dublagem de “One Punch Man” quem não ficou satisfeito com a versão em inglês, que era a primeira referência da equipe, e decidiu assistir ao japonês. “Ficou muito melhor. Se assistirem à versão em inglês vão ver que não tem graça nenhuma”.
Versatilidade
Yuri falou sobre a diferença de dublar atores e animês, destacando que, quanto melhor o ator, mais prazeroso e desafiador é o trabalho. O escocês James McAvoy é um exemplo. Yuri dubla o personagem dele, Professor Xavier, em “X-Men”, e também o James de “Fragmentado”.
“Se tem um grande ator lá, eu preciso conseguir ser um grande ator aqui, porque ele exige mais ferramentas artísticas. O Professor Xavier é um mentor, foi um presente que eu ganhei. E, no caso do James, são 23 personalidades! Já nos animês, o Gaara da primeira fase de ‘Naruto’ desafiador porque tinha que trazer um ódio por tudo e por todos, mas, ao mesmo tempo, ele não era um vilão agressivo na forma de falar. Esse termômetro é muito difícil de fazer só com a voz”.
Para Yuri, é mais difícil dublar animês do que personagens humanos. “Os seres humanos têm as expressões que nos ajudam; nos animês não. Os japoneses são muito bons no que fazem. Tentamos entregar o melhor, deixar isso guardado, sem saber se aquele animê vai ser um grande sucesso ou não. A gente não sabia que ‘One Punch Man’ ou ‘Naruto’ seriam grandes sucessos”.
Por isso, a excelência no trabalho é tão importante. Yuri lembrou de algo que ouviu ainda criança do dublador Ézio Ramos (1936-1999), o primeiro a dar voz a Tom Hanks no Brasil: “Você tem que fazer bem esse trabalho porque um dia você vai morrer e a obra vai ficar”. Imagina a reação de Yuri, na época com 6 anos: “Eu só lembro que pensei: ‘como assim tio, eu vou morrer??!!”, recorda.
Pode-se dizer que foram os animês que fizeram Yuri conquistar tantos corações, mas a lista de personagens aos quais emprestou a voz é extensa, com protagonistas de grande peso. Entre os mais recentes está o chef Carmy, de “O Urso”, série com 13 indicações ao Emmy Awards de 2025, interpretado por Jeremy Allen White.
“Travei nas bases”
Entre tantas histórias vividas na carreira, há também os momentos em que Yuri “tremeu nas bases”. Úrsula Bezerra, dubladora do Naruto, era diretora de dublagem de “Dragon Ball Z”, animê que Yuri assistia como fã, e foi em um momento marcante que ele começou a participar: quando Gohan se torna Super Saiyajin.
“Não me avisaram nada, não era teste… eu tinha uns 16 anos, entrei no estúdio e disseram que eu faria ‘Dragon Ball’. Achei o máximo, mas quando disseram que era o Gohan, nem acreditei, ele já tinha um dublador. Eu disse que não faria, aquilo me impactou emocionalmente e eu travei”.
Yuri foi pra casa sem gravar, triste e achando que havia perdido a oportunidade. Mas, por ironia do destino, a gravação não foi feita no dia programado e ele teve uma segunda chance. “Rezei, pedi pra Jesus me ajudar e na hora deu certo. Talvez esse tenha sido o personagem mais difícil de dublar porque me pegou emocionalmente na época”, contou. Ele também se emocionou ao dar voz a Michelangelo (“Tartarugas Ninja”), Geninho (“Smurfs) e Ikki (“Cavaleiros do Zodíaco”).
Em 2007, quando foi chamado para fazer “Naruto”, ele não sabia do que se tratava. O carro quebrou em plena sexta-feira e ele não conseguiu chegar ao estúdio. Faltava uma voz para completar as três necessárias para enviar ao cliente. Mais uma vez, o destino interveio e, na segunda-feira, ele conheceu Gaara, personagem que dubla até hoje em todas as versões.
Sensei
Além de dublador, Yuri Chesman é professor de Kung-fu, prática que começou há quase 20 anos, e tem uma escola onde ensina essa arte marcial há 10 anos. O Kung-Fu mudou para melhor a vida do dublador.
“O Kung-fu mudou a minha vida. Eu era uma pessoa mais agitada, mais acelerada. O Kung-fu me trouxe mais controle, sei a hora certa de fazer as coisas e melhorei como profissional, porque nessa arte marcial trabalhamos muito a respiração”.
Efeito “Crepúsculo”
Chesman também dublou o lobisomem Jakob (Taylor Lautner) em “Crepúsculo”, saga que não tinha muitos fãs na plateia em sua apresentação em Uberlândia, mas mesmo assim ele fez questão de destacar um mérito do filme:
“Para a profissão de dublador, ‘Crepúsculo’ foi um marco histórico. Foi a primeira vez na história que havia mais filmes dublados do que legendados nas salas de cinema brasileiras. Antes, não chegava nem à metade.

Ao longo da apresentação, o público também lembrou de Gon (“Hunter x Hunter”), personagem adorável e cheio de lições, descrito por Yuri como um verdadeiro gentleman. Ele ainda levou fãs para o palco (foto ao lado) para terem um gostinho de como é fazer uma dublagem, o que arrancou aplausos da plateia.
E, para aqueles que sonham em seguir na profissão, deixou um conselho direto: não há segredos, é preciso dedicação. “Somos atletas da voz. A gente aquece, alonga, desaquece, temos técnica, porque no mesmo dia eu posso gravar um personagem em um grito agonizante e seguir para outro que vai cantar uma canção pop”.
Fã viaja mais de 200 km para encontrar dublador



Em um momento de sua participação na Catsu, Yuri Chesman respondeu a perguntas dos fãs. Entre eles, uma mulher que havia viajado 213 km do interior de São Paulo só para vê-lo. Fernanda Sumaya, de 51 anos, é de Uberlândia, mas saiu da cidade com 10 anos. Atualmente mora em Cristais Paulista, cidade próxima a Franca. Nunca havia participado da Catsu e chegou especialmente para encontrar Yuri e autografar sua edição número 1 do mangá “Naruto”.
“Faz alguns anos que acompanho o trabalho dele e de outros dubladores de ‘Naruto’. Sou muito fã, ele sempre responde a gente pelas redes sociais, mas hoje é a primeira vez que vou encontrá-lo pessoalmente”, disse a estudante de Engenharia da Computação e servidora pública ao Uberground, que acompanhou esse encontro inédito com exclusividade.
Fernanda contou que, quando chegou à cidade, antes mesmo da abertura da Catsu, às 10h, já estava a caminho do evento. Afinal, as pulseiras para o Meet & Greet tem um limite, e ela não queria arriscar ficar sem. Em tempo: essa forma de distribuição é um diferencial da Catsu, mais inclusiva, pois permite que todos os fãs tenham a chance de conseguir uma pulseira, não apenas aqueles que podem pagar um ingresso mais caro.
“Fiquei tão nervosa… Eu tenho ansiedade e TDAH, na hora não conseguia nem encontrar os ingressos na mochila. Mas a equipe da Catsu foi tão acolhedora, me ajudaram e consegui me acalmar”, relatou.
Assídua na CCXP, Fernanda descobriu os animês já adulta e se lembra de ouvir frases como: “isso não é para você”, “é uma fase”, “que ridículo”.
“Eu quase não tinha amigos. Quando cheguei na CCXP, senti que havia encontrado o meu lugar entre aquelas pessoas — eram iguais a mim. Hoje tenho amigos em todo canto do Brasil. No ano passado nos reunimos em São Paulo e, nesse meio, eu me encontrei. Trabalho o ano todo para ir pra CCXP”.
Fernanda tem uma filha de 30 anos, que está prestes a se casar e percebe o quanto o mundo geek melhorou a vida da mãe.
“Minha filha me deu de presente de aniversário, uma vez, uma excursão para a CCXP porque ficou com medo de que eu não voltasse. Ela brinca que perdeu a mãe e ganhou uma adolescente em casa”, contou.
Brincadeiras à parte, não foi a CCXP que proporcionou o encontro tão aguardado entre fã e ídolo, mas sim a Catsu. E não apenas para Fernanda: dezenas de fãs formaram fila para uma foto e um autógrafo de Chesman, que recebeu a todos com muito carinho. A reportagem presenciou inúmeras demonstrações de admiração — jovens saindo com as mãos trêmulas segurando um bloco autografado, mães, pais, crianças, adultos, cada um com sua história particular.
IA como parceira
Nos bastidores, a reportagem conversou com Chesman sobre como tem sido importante para ele atender a convites de eventos e ter esse contato direto com fãs. Para o dublador, apesar de ser um ofício como qualquer outro, quando se trata de arte há um diferencial. É um trabalho diferente porque, apesar de ter um lado técnico como qualquer outro — o frentista abastece o carro, o pedreiro constrói uma casa, o vendedor vende uma calça — o dublador atua, dubla. Mas há uma particularidade:
“As pessoas vão consumir aquele conteúdo que estou produzindo e aquilo, de alguma forma, pode tocá-las. É uma responsabilidade muito grande que eu coloco pra mim. Sempre peço ao universo calma e inspiração para fazer o melhor possível, porque, além de impactar muitas pessoas, aquilo pode até não fazer sucesso, mas pode mudar a história de alguém por meio de uma frase”, disse Yuri, ressaltando que nunca atua no “automático”, já que cada projeto é algo que ficará para sempre.
No ano passado, o uso da Inteligência Artificial nas produções audiovisuais foi tema de debate na Catsu. A reportagem quis saber a opinião de Chesman, que reforçou algo já claro durante sua passagem por Minas: nada substitui a emoção transmitida pelo dublador nem o abraço apertado nos fãs, como o dado em Fernanda.
Todo início de tecnologia assusta. A IA também assusta, mas a humanidade que nós, atores, conseguimos colocar na obra nenhuma IA vai conseguir reproduzir, porque ela não tem uma coisa que nós temos: a capacidade de gerar argumentos através da emoção. A IA é um compilado do que já foi feito, mas nunca vai conseguir criar algo visceral, do zero.
Chesman acredita que pode haver redução em alguns trabalhos e que profissionais que não se atualizarem podem ficar pelo caminho — faz parte do processo. Mas, segundo ele, a dublagem como a conhecemos não vai se extinguir.
“Eu vejo isso como um convite para a gente correr atrás, se aprimorar, estudar, entender novas formas de trabalhar. A gente vai ter que conviver com essa tecnologia, e ela pode até ser boa para o nosso ofício. Lutar contra não é o caminho: precisamos acolher e aprender a melhor forma de lidar com ela.”
Todas as fotos por Adreana Oliveira.