Com incentivo internacional, o espetáculo ‘Conversas de Corpo’ volta a Uberlândia, onde foi criado em 2014, para um público de 0 a 3 anos
A atuação da bailarina e coreógrafa Fernanda Bevilaqua no cenário da dança uberlandense é imensa. Foram muitas as suas criações e performances que extrapolaram os limites de um palco. Com ela, a dança chegava até por delivery. Pesquisadora, diretora artística e educadora da dança, Fernanda também é mãe de duas filhas, Iara e Clara, que seguiram seus passos como artistas e educadoras desbravadoras.
Junto com a caçula, Clara Bevilaqua, e o genro, Gui Calegari, ela é co-criadora e diretora do espetáculo “Conversas de Corpo“, estreado em Uberlândia em 2014 e voltado para crianças de 0 a 3 anos. Mas por que o Uberground retoma essa história em setembro de 2025?
Ao contrário de tantas criações efêmeras, “Conversas de Corpo” permanece vivo e relevante 11 anos após sua estreia. O espetáculo retorna ao local de sua estreia, o Palco de Arte do Uai Q Dança neste sábado (13), às 11h. Desde 2016, quando Clara e Guilherme se mudaram para Portugal, a produção já contabiliza 72 apresentações naquele país e segue em circulação.
O trabalho celebra a primeira infância e o mistério dos encontros em performances que misturam dança, canto, desenho e interações espontâneas como correr, gritar, agarrar, cair e levantar. Tudo é permitido em cena, preenchendo uma lacuna no diálogo artístico com o público de até três anos, que ao contrário do que muita gente pode pensar, carecem de arte e cultura como gente grande, com uma curadoria específica para essa faixa etária.
De volta ao Brasil, Clara e Gui chegaram no início do mês com uma agenda cheia. Em Uberlândia, participam da Paralelinha: Mostra de Dança Contemporânea para Crianças, edição especial da Mostra Paralela, com “Conversas de Corpo”. Em São Paulo, apresentaram na Casa de Francisca a mais recente criação, “Histórias Com o Céu às Costas”, em parceria com Barbatuques e Mundo Aflora.
Depois dessa temporada, a dupla retorna a Portugal para preparar a programação comemorativa dos dez anos da Baileia, associação cultural fundada por eles cuja história confunde-se com a do próprio espetáculo.
Músico, performer e arte-educador, além de mestrando em Educação, Práticas Artísticas e Inclusão, Guilherme destaca que em Portugal o espetáculo ganhou tempo e espaço para aprofundar o diálogo com a primeira infância:
Não é um espetáculo para bebês, mas um espetáculo que considera sua presença no mundo. Isso muda muita coisa.
Clara explica que a obra se mantém essencialmente a mesma, mas incorpora novas camadas ao longo do tempo:
Conversas de Corpo cresceu junto de pessoas e lugares, com uma rede de afetos e de trabalho coletivo. É toda uma trama que vai da produção ao cotidiano, até a relação direta com o público em escolas e famílias.
Segundo ela, cada apresentação revela descobertas. Em Lisboa, o espetáculo conquistou uma temporada de três meses no Teatro da Trindade, com sessões lotadas de quinta a domingo — feito raro para artistas independentes.
“O espetáculo cresceu porque se deixou afetar, não pelo desejo de entreter ou conquistar públicos, mas pela vontade de estar junto, em todas as idades, a partir da escuta, da curiosidade e do comum. E isso, dez anos depois, continua a acontecer”.
Clara acrescenta que os ensaios são permeados por emoções intensas. Apesar de conhecerem o espetáculo “de trás para frente”, sempre surge algo novo. Um exemplo é a substituição do plástico bolha, antes usado no cenário, por folhas de cortiça, uma escolha alinhada a preocupações ambientais atuais.
Assim, “Conversas de Corpo” é um espetáculo vivo, que amadureceu cênica e conceitualmente junto com seus criadores.
“Cada vez que dançamos, encontramos algo novo. O que sustenta este trabalho é justamente sua capacidade de continuar sendo espaço de investigação, de afeto e de transformação em nós e nos outros”, completa Clara.
A Baileia
“Conversas de Corpo” abriu caminho para a criação da Baileia, núcleo artístico dedicado às artes, às infâncias e à educação. Fundada em Lisboa em 2016 e oficializada como associação em 2023, a Baileia desenvolve oficinas, residências e parcerias com outros coletivos.
No Brasil, a peça se fortaleceu com a direção de Fernanda Bevilaqua e uma rede de trabalho e afeto em Uberlândia. Já em Portugal, contou com o apoio das artistas luso-brasileiras Mariana Lemos e Lysandra Domingues, além do espaço c.e.m – centro em movimento, onde Clara e Gui investigam artisticamente com crianças desde 2016.
A turnê atual da Baileia pelo Brasil tem apoio da DGArtes (Direção-Geral das Artes), reforçando a qualidade da produção. Esse apoio à internacionalização é um reconhecimento da República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto.
“Em tempos de escassez de políticas públicas para a cultura, esse reconhecimento também é uma luta pela valorização da arte como bem essencial. Trazer o espetáculo ao lugar onde foi criado amplia a reflexão sobre tempo, encontros e transformação. É um gesto que reconhece não só o passado da obra, mas também sua permanência e potência no presente”, finaliza Clara Bevilaqua.
Foto da capa: Centro Cultural Vila Flor
SERVIÇO
O QUE: espetáculo “Conversas de Corpo”
QUEM: Clara Bevilaqua e Gui Calegari (Associação Baileia)
QUANDO: sábado, 13 de setembro
HORÁRIO: 11h
ONDE: Palco de Arte (R. Cel. Manoel Alves, 22 – Fundinho)
ACESSIBILIDADE: libras e audiodescrição
INGRESSOS: gratuitos (os ingressos estão esgotados, é possível ficar na lista de espera no Sympla)
MAIS INFORMAÇÕES: Site Baileia

QUEM FAZ O ESPETÁCULO ACONTECER
Intérpretes-criadores: Clara Bevilaqua e Gui Calegari | Direção: Fernanda Bevilaqua | Produção: Lysandra Domingues e Baileia | Desenho de luz: Sérgio Moreira e Gui Calegari | Acompanhamento artístico: Mariana Lemos | Apoio à criação: Uai Q Dança CIA | Apoio: c.e.m – centro em movimento e Coletivo Lagoa (Afará)