Helena Manzan reencontra suas raízes em projeto que transforma Uberlândia em matéria-prima para arte
A artista plástica Helena Manzan encontra nas ruas de Uberlândia, onde consolidou-se profissionalmente, elementos para uma nova fase de sua produção. Natural de Tupaciguara, com trajetória construída entre o Brasil e a Itália, onde vive há 24 anos, durante um período de férias em terras mineiras, ela resgatou o olhar para as próprias origens ao transformar as experiências em criações artísticas.
O resultado ela chama de ‘Uberlandiando, que nasceu de uma atividade cotidiana dela pela cidade: os passeios de ônibus. Entre os trajetos, as conversas com outros passageiros e as observações da paisagem, Helena começou a fotografar árvores, sombras e reflexos da luz sobre a cidade. Essas imagens passaram a integrar desenhos, registros e diários da artista que reúnem memórias de viagens, encontros familiares e lugares por onde passou.
“Eu amo andar de ônibus. Entro ali, retorno à minha mineiridade’. Para quem nasceu em Tupaciguara, perto do Rio das Pedras, a chegada aqui ainda é uma memória marcante na minha alma”.
A experiência de circular pela cidade também recupera lembranças da juventude e da convivência com pessoas que encontrou pelo caminho. Helena observa os passageiros, especialmente os mais velhos, conversa com desconhecidos e encontra nessas relações parte da sua expressão artística.
“Eu chego ali e tem sempre uma história me esperando. Tem sempre um senhor, uma senhora, um casalzinho. Eles me dão tanto compartilhando suas histórias, e nem vejo o tempo passar”, diz.
As sombras fotografadas durante os percursos também ganharam significado próprio. Para a artista, a luminosidade de Uberlândia tem características particulares, diferentes das paisagens que encontra na Itália ou em outras cidades brasileiras.
“Essa luz de Uberlândia ilumina. O céu é mais alto, me lembra o céu da Espanha. Para mim, são sombras de luz”.
Obra viva
Durante a entrevista, saímos do apartamento/ateliê onde Helena em Uberlândia para a rua. Perto do prédio, tem o ponto de ônibus onde ela costuma desembarcar de suas andanças, e no mesmo quarteirão, a sombra de uma figueira que cativa o seu olhar há anos.
Helena levou uma de suas transparências e com a ajuda de um senhor que havia saído de casa para tirar o lixo, conseguiu alcançar os galhos mais altos e prender sua tela flexível diante do muro que exibia as sombras do meio da manhã no cerrado. Ali, pegou sua aquarela e um pincel e deixou o resto por conta do vento.
“É um grafite invisível e todas essas camadas e elementos fazem com que me sinta como se integrasse uma orquestra e o vento é o maestro”, disse enquanto fazia sua intervenção urbana no bairro Tibery.

Residência em Ouro Preto
Neste retorno de férias ao Brasil, Helena Manzan desenvolveu seus novos trabalhos em um processo que recupera referências de sua formação e de sua identidade cultural.
Essa identidade teve também um momento de compartilhamento, durante uma residência artística em Ouro Preto em outubro. O encontro com artistas de diferentes idades e trajetórias fez com que ela olhasse um pouco mais para si.
Ela conta que a vivência foi importante para revisitar a história e compreender como os anos vividos fora do Brasil influenciaram sua produção. A convivência com artistas brasileiros e estrangeiros, segundo Helena, criou um ambiente de troca que ultrapassou a apresentação dos trabalhos.
“Não era apenas uma residência de arte dessas em que as pessoas chegam, conhecem um projeto e vão embora. Era uma coisa de sentir aquele lugar, de contato, de troca. E percebi que todos sentiam a mesma conexão não só nas oficinas, mas nos cafés da manhã, nos jantares”, relata.
A artista levou para a residência referências de sua trajetória na Europa, mas também percebeu o quanto deseja aprofundar a relação com a cultura brasileira. A mineiridade, a memória familiar e as manifestações populares como o Congado e a Folia de Reis, aparecem como elementos que pretende explorar com mais intensidade.
“Eu voltei de lá tão carregada de mim mesma, com tudo que eu vi e conversei. Vi cada parte do Brasil ali e ao retornar ao meu ateliê em Uberlândia, diante de duas obras expostas uma diante da outra, enxerguei melhor a presença de Itália em Minas e vice-versa.”
Natureza, memória e transparência

A relação com elementos naturais acompanha a trajetória de Helena Manzan. Em seu processo de criação, materiais encontrados no cotidiano são incorporados às obras, muitas vezes sem passar por transformações complexas.
Na Itália, utiliza cinzas provenientes da chaminé, folhas, terra e outros resíduos naturais. Também produz o próprio carvão a partir de galhos de roseira que queima para utilizar nos desenhos. Em Uberlândia, tem recorrido a materiais como folhas típicas do cerrado, pedras, tecidos e usado diferentes palhetas, de acordo com as possibilidades de cada trabalho.
Em 2024, ao conversar com o Uberground, a artista já apresentava pesquisas sobre a invisibilidade e o uso de materiais orgânicos, em trabalhos que também dialogavam com sua experiência na Itália. Agora, essa investigação ganha novas possibilidades a partir de referências brasileiras.
“Tudo integra essa coletividade natural que eu gosto e que me inspira”, explica.
A matéria também determina o tempo de execução das obras. Algumas pinturas recebem camadas de verniz e são colocadas diretamente no chão, em contato com terra e as folhas. Depois de secas, voltam para a parede, onde a artista continua trabalhando sobre as texturas produzidas pelo contato com esses elementos.
A transparência é outra investigação presente em sua produção mais atual. Helena desenvolve imagens que não pretendem representar figuras de maneira convencional. Sua intenção é trabalhar com imagens que aparecem e desaparecem, explorando os limites entre presença e ausência dependendo do ângulo de vista do apreciador.
Hora de voltar
Pela primeira vez em uma entrevista para este veículo, Helena Manzan fala de algo que não esteve no radar por muito tempo: a volta definitiva para o Brasil. Apesar da decisão, ela não pretende romper os vínculos construídos na Itália. A artista mantém relações profissionais e afetivas com o país, onde desenvolveu boa parte de sua trajetória e realizou exposições e projetos em diferentes espaços.
Com o retorno à Europa, ela buscar um novo espaço. Parte de seu ateliê em Molise foi comprometido após temporais que atingiram a região. A estrutura sofreu danos, e a entrada no espaço foi impedida por questões de segurança e algumas obras se perderam.
A situação a obrigou a reorganizar sua rotina de trabalho. Um outro local foi cedido à artista, mas ainda não é o suficiente em questão de espaço por ela trabalhar com peças de grandes dimensões, por isso, esse novo espaço será uma prioridade.
Mesmo diante dessas mudanças, os projetos em terras estrangeiras seguem florescendo. Uma escultura de aproximadamente dois metros tem como referência a flor de giesta. A obra ‘Ginestra’ integra a segunda edição do projeto ‘Terra Cielo 2026’, no museu a céu aberto de Macchi d’Isernia, na região de Molise. A curadoria é de Antonio Pallotta architetto
e Carmen Dan’tonino.
A escultura foi inspirada na giesta (ginestra em italiano), uma flor associada à resistência e à capacidade de renascer mesmo em condições adversas. Com linhas leves e circulares e tonalidade amarela, a instalação estabelece um diálogo com as árvores, a luz e o vento. A proposta aproxima arte contemporânea, natureza e memória do território, explorando relações entre pertencimento, força e fragilidade.

“Quero trazer essa obra para Uberlândia ou Tupaciguara, é uma meta, assim como outros projetos pensados especialmente para o nosso cerrado”, confidencia.
A experiência também inspirou uma nova pesquisa em Uberlândia. Helena tem desenvolvido esculturas a partir de flores de ipê e sibipiruna, espécies presentes na paisagem urbana. Uma das ideias é criar uma estrutura de grandes dimensões, com elementos vazados e transparências.
A flor do ipê amarelo foi o ponto de partida para uma de suas mais novas criações. A escultura, inspirada no cerrado mineiro, é outra obra que Helena espera, em um futuro próximo, montar em Uberlândia, afinal, a cidade volta a integrar, de maneira mais direta, o seu universo.
A artista também tem projetos expositivos em Málaga, na Espanha, e outra em Madri, prevista para 2027. Há ainda uma viagem à Índia, programada para janeiro, com apresentação de sua produção na Universidade de Nova Délhi, além de uma exposição individual em Helsique, capital finlandesa.
‘A arte que vive em mim’

A circulação internacional não altera o que Helena considera essencial em sua trajetória: criar, independentemente do reconhecimento comercial ou da posição ocupada no mercado de arte. Assim como suas criações, ela leva a vida de forma não linear, com espaço para a imaginação prosperar.
“Todo criador quer que sua arte seja conhecida mundo afora, mas se não acontece, segue fazendo da vida sua arte. Você cria porque é inerente a você. A arte dentro de mim é o que eu mais amo.”
A decisão de retornar com mais frequência ao Brasil tem relação com essa necessidade de reencontro. Aos 65 anos, Helena fala sobre a vontade de viver mais intensamente a cultura brasileira, sem abrir mão da casa e dos vínculos que construiu na Itália.
“Eu decidi que quero morrer aqui, mas vou ficar com o pezinho lá. Vou ter lá meu cantinho, minha casinha naquela montanha. Não tem como deixar tudo.”
Entre as paisagens italianas e a luz do cerrado, a artista encontra novas possibilidades para uma produção que nunca esteve separada da própria experiência de vida.
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