Loading…

Em livro autobiográfico Clara Emília conta sua história permeada também pela memória da arte de Uberlândia

Na história das artes, de tempos em tempos, uma ou outra assumem o protagonismo. Entre elas, a música, o cinema e o teatro acabam ocupando a maior parte dos espaços, das conversas. Nesse cenário, artes como pintura, escultura e até mesmo a arquitetura ficam galgando seus espaços pelos cantos. Uberlândia é uma cidade de grandes talentos, nem todos conhecidos ou reconhecidos. Por isso, é uma grata surpresa receber um livro com as memórias da escultora Clara Emília Zacarias Martins, que será lançado na noite de sexta-feira (25), na Casa da Cultura.

Generosa, a autora vai reverter parte do valor arrecadado com as vendas do livro ‘A Arte de Ser’ para o Lar de Veneranda, do Grupo Espírita Bezerra de Menezes. Viabilizado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Pmic), a obra conta com a parceria da jornalista Cleide Maria da Silva e Sousa, a ghost writer que ajudou Clara Emília a organizar as ideias para presentear o leitor com um texto afetivo e primoroso.

A menina que sonhava em ser artista

Clara Emília, 77 anos, conta em livro autobiográfico o papel da arte em sua vida (Eugenio Pacelli)

Antes de existir a escultora Clara Emília, existia uma menina que cresceu em meio a tecidos, bordados, objetos, cores e pessoas que faziam da criatividade uma forma de trabalho e de vida. Na casa dos tios Esterino Finotti e Nena, em Uberlândia, o que poderia ser apenas um negócio familiar ganhou ares de ateliê: dali saíam objetos para festas infantis, vestidos de noiva bordados à mão, grinaldas e buquês, todos produzidos com o cuidado e o bom gosto que fizeram daquele empreendimento uma referência em uma época em que a cidade ainda não contava com lojas especializadas nesses tipos de produção.

Foi nesse ambiente que Clara Emília começou a imaginar que também poderia encontrar na arte um caminho para si. A convivência com o pintor Ido Finotti (1889-1980), a quem chamava de tio Ido, reforçou essa percepção. Suas obras despertaram na jovem um desejo que, embora tenha surgido cedo, precisou esperar muitos anos para se concretizar.

“E foi justamente por conhecer suas obras, que pensei: ‘Um dia vou estudar Arte’.”

O sonho não se realizo de imediato. Clara Emília se casou, teve três filhos e anos mais tarde conseguiu concluir o curso de Artes. Já adulta e com uma história de vida construída, que encontrou na cerâmica uma possibilidade de expressão que a encantou e também revelou uma aptidão que seria ampliada pela experimentação de outros materiais e técnicas.

A trajetória até a realização desse desejo ajuda a entender a relação que Clara Emília mantém hoje com a arte. O que um dia foi apenas a ideia de estudar se transformou em obras que atravessaram décadas e que agora também ganha forma de livro.

É a partir dessa trajetória, entre o sonho cultivado na juventude, a vida familiar, a descoberta da própria linguagem artística e a persistência ao longo dos anos, que Clara Emília apresenta sua autobiografia. Em suas páginas, ela reúne memórias, obras, técnicas e materiais, mas também registra a experiência de quem precisou esperar pelo momento certo para se realizar como a artista que é.

Quantas vezes os artistas são resistentes, são a resistência e não é um meio fácil de prosperar. A repórter pergunta à Clara Emília, que dica ela daria para os artistas que almejam que sua arte chegue a mais pessoas e ajude a transformem outras vidas.

Clara Emília afirma que perseverar faz parte do próprio processo criativo. E a lição que encontrou na arte serve também para quem ainda está tentando transformar um sonho em realidade:

“A arte nos ensina que a gente vai aprendendo com os erros. Na arte e na vida, só erra quem tenta até realizar o que pretende.”

SERVIÇO

O que: lançamento do livro ‘A Arte de Ser’
Autora: Clara Emília
Quando: 25 de setembro
Horário: 19h
Onde: Casa da Cultura (Praça Coronel Carneiro, 89, Fundinho)
Entrada: gratuita
Valor do livro no local: R$ 50
Ação voluntária: parte da renda das vendas será destinada ao Lar de Veneranda, do Grupo Espírita Bezerra de Menezes
Jornalista responsável e ghost writer: Cleide Maria da Silva e Sousa

Foto da capa: Eugenio Pacelli

Legado

Escultura de Clara Emília traz uma assinatura afetiva, em homenagem ao marido falecido durante a produção do livro

Mais do que um registro pessoal, o livro ‘A Arte de Ser’ surge para preservar um legado. Nas memórias de Clara Emília, episódios de sua vida se misturam a personagens, lugares e acontecimentos que também fazem parte da história cultural de Uberlândia. O resultado é uma narrativa que passa pela arte, pela família, pelos desafios encontrados ao longo da vida e pela própria cidade.

Escrito em linguagem simples e marcada por lembranças pessoais, a obra perpassa diferentes momentos da trajetória da escultora. A publicação apresenta ainda aspectos do processo criativo da artista, revelando técnicas, materiais, cores e estilos que fazem parte de sua produção.

Clara Emília trabalha com diferentes possibilidades da escultura, explorando o tridimensional, o abstrato e o minimalismo. Entre suas experiências está o entalhe frente e verso em uma mesma base, criando desenhos e formas distintas a partir de uma única peça. A artista também trabalha com argila e pedra, alternando entre temas figurativos e abstratos.

Uma característica de suas obras são as figuras sem rostos ou com feições pouco detalhadas. A escolha, que acompanha referências de movimentos artísticos desde sua época de estudante, ganhou uma marca bastante pessoal: nos rostos, inclusive em trabalhos de inspiração sacra, uma pequena covinha no queixo é uma espécie de assinatura afetiva dedicada ao marido, o professor Sandoval, que morreu durante o período de produção do livro.

Convivendo com o diagnóstico de Parkinson, Clara Emília continua desenhando e esculpindo. A produção artística, nesse contexto, aparece como parte de uma trajetória de persistência e reinvenção. Portanto, a obra registra a experiência de uma mulher que construiu seu caminho em diferentes momentos históricos e sociais, enfrentando expectativas e limitações culturais impostas às mulheres e encontrando na arte uma maneira de preservar sua autonomia criativa.

Deixe um comentário