Yentl, Dalton Trevisan e Nietzsche: Alessandra Maestrini e Denise Stoklos trazem três universos ao palco do Teatro Municipal de Uberlândia
Há personagens que parecem atravessar o tempo porque continuam fazendo perguntas que ainda não fomos capazes de responder. Yentl, a jovem que desafia as convenções para conquistar o direito ao conhecimento, é uma delas. Dalton Trevisan, o escritor paranaense recluso que fez da síntese uma de suas maiores marcas, é outra espécie de provocação. E Nietzsche, atravessado pela imagem de um cavalo espancado que teria levado o filósofo a um colapso, abre espaço para uma experiência ainda mais livre entre corpo, poesia e artes visuais.
São três universos que chegam a Uberlândia por meio de três espetáculos protagonizados ou dirigidos por duas artistas que também ajudaram a redefinir os limites de suas próprias linguagens: Alessandra Maestrini e Denise Stoklos. O Uberground conversou com as duas artistas que estão ansiosas para encontrar um novo público no Triângulo Mineiro. Os ingressos estão com preços populares, a partir de R$ 25, e integram a programação 2026 do projeto Uberlândia na Rota das Culturas. Confira os detalhes no final da reportagem.
Uma diretora para três
Os três espetáculos são dirigidos por Alessandra: ‘Yentl em Concerto’, também protagonizado por ela; ‘Dalton Trevisan, que tinha um cachorro’, protagonizado por Denise e Alessandra; e ‘Nietzsche, do Cavalo Nada Sabemos’, estrelado por João Paulo Lorenzon em estreia nacional.
Diferentes entre si, os trabalhos encontram pontos de contato na literatura, na liberdade de criação e, principalmente, na busca por novas formas de comunicação com o público.
Para Alessandra Maestrini, conhecida por sua trajetória nos musicais, no teatro, cinema e televisão, ‘Yentl’ é uma personagem que acompanha sua própria história artística há muitos anos. O encontro aconteceu primeiro por meio do filme de 1983, protagonizado por Barbra Streisand, uma de suas maiores referências.
“Conheci essa história primeiro pelo filme e por causa do filme fui atrás do conto”, explicou a diretora.
O filme foi inspirado no original de Isaac Bashevis Singer (1902-1991) ‘Yentl, O Menino de Yoshiva’ e a forma como foi contato no cinema inspirou Alessandra, que acabou, em pouco tempo, criando uma relação profunda com o repertório musical da obra.
Alessandra conta que passou a estudar as canções não apenas como repertório artístico, mas como um exercício técnico para sua própria formação vocal.
“Eu me apaixonei por esse filme. A música é apaixonante. Eu usava o repertório como estudo técnico vocal porque ele exige uma dinâmica, extensão, ritmo, timbre, volume, tudo.”
O interesse se transformou em espetáculo em 2014, quando Alessandra foi convidada pelo Centro de Cultura Judaica para participar de uma programação relacionada ao universo da obra. Sem tempo e sem orçamento para uma montagem convencional, encontrou justamente na limitação uma nova possibilidade.
“Eu falei: não vou fazer o meu show, eu vou fazer ‘Yentl’. Não tinha verba nem tempo, então pensei: vamos fazer em concerto.”
Ao lado do pianista João Carlos Coutinho, que Alessandra chama de seu ‘marido musical’, ela criou um formato essencial, construído a partir da voz, do piano e da própria relação com a história. O espetáculo também carrega uma homenagem a duas de suas maiores influências: Barbra Streisand e Denise Stoklos.
A ausência de uma estrutura convencional abriu espaço para uma relação mais direta com o público e para a liberdade de transformar cada apresentação em uma experiência particular.
“Como eu não tive tempo de escrever um roteiro, fui contando a história conforme me lembrava. É quase um stand-up nesse sentido. Tem uma história que vai sendo inventada na hora, e eu vou vario bastante, inserindo coisas atuais e o meu ponto de vista, sempre com muito senso de humor.”
O direito de ser

Mais do que uma história sobre uma jovem que se disfarça de homem para estudar, ‘Yentl’ sensibiliza Alessandra por falar de uma luta que continua atual: o direito de existir plenamente e de realizar os próprios sonhos.
“O que me toca é essa pessoa agarrar com todas as forças o direito, primeiro, de existir; segundo, de ter a própria identidade e realizar os próprios sonhos. Ela questiona o status quo. É uma mulher que, naquela época, para estudar, precisava ser um homem. Para realizar o que quer, precisava deixar de ser quem era.”
Para a artista, a busca de Yentl ultrapassa o contexto histórico da personagem e dialoga diretamente com discussões contemporâneas sobre liberdade e autonomia.
“É essa busca pelo direito de ser e de fazer o que se é, e de ter direito a isso.”
Em um cenário que, segundo Alessandra, também apresenta movimentos de retrocesso e tentativas de reafirmação de papéis tradicionais, a história ganha novos significados.
“Só haverá retrocesso se a gente deixar e luto contra isso com minha voz, como mulher, como LGBT, como humanista, como cidadã, como cantora e atriz…”
‘Yentl em Concerto’, portanto, fala de amor e liberdade, mas também de algo que Alessandra considera fundamental: o direito, e a necessidade, de exercer a própria voz.
O ‘encontro’ entre Denise e Dalton

Se ‘Yentl’ se constrói a partir da voz e da música, ‘Dalton Trevisan, que tinha um cachorro’ aproxima dois artistas que parecem, à primeira vista, pertencer a universos muito diferentes.
De um lado, Dalton Trevisan, um dos grandes nomes da literatura brasileira e conhecido pela escrita econômica, capaz de condensar histórias e personagens em poucas palavras. Do outro, Denise Stoklos, referência internacional do teatro e criadora de uma linguagem própria, o ‘Teatro Essencial’.
A ponte entre os dois foi construída por Alessandra Maestrini, responsável pela adaptação e direção do espetáculo. O tom da entrevista, conduzida em viva-voz, deixou claro a admiração mútua entre as duas diretoras.
Denise conta que o projeto começou a partir de uma relação indireta e curiosa com o escritor. Uma de suas irmãs era muito fã de Trevisan (1925-2024) e mantinha com ele uma relação marcada por bilhetes e textos deixados em uma livraria. Denise contou que eles nunca chegaram a se encontrar pessoalmente, mas quando saia algum texto inspirado em algum bilhete da irmã, ela mostrava.
A história ganhou novos contornos quando uma carta escrita por Denise, anos antes, pedindo os direitos autorais para trabalhar com a obra do escritor, foi encontrada por uma assistente.
“Ela achou uma carta minha de dez anos atrás pedindo os direitos autorais… e disse que estava pronta para ceder. Fiquei muito feliz com isso”, recordou Denise.
A partir daí, a dramaturga e diretora mergulhou novamente na obra de Trevisan e encontrou um texto que a marcou pela afetividade e pela relação com a natureza.
O projeto cresceu e encontrou em Alessandra Maestrini uma nova perspectiva. Para Denise, a diretora conseguiu revelar facetas da personalidade de Dalton Trevisan que nem sempre aparecem na imagem pública de um autor conhecido pela reclusão e pelos textos frequentemente duros sobre a condição humana.
“A Alessandra foi percebendo o humor, a leveza que o Trevisan tem, apesar de contos tão violentos e atrozes sobre a humanidade. Existe um olhar muito amoroso pela vida.”
O resultado é uma peça que, de certa forma, imagina um encontro com o próprio escritor.
“Foi fazendo uma montagem que se transformou na peça que ele nunca escreveu.”
Além da direção e da adaptação, Alessandra também divide a cena com Denise e canta durante o espetáculo. Para Denise, acostumada durante décadas a criar e dirigir seus próprios solos, a parceria representa uma renovação.
“Depois de tantos anos fazendo solos e me dirigindo, é uma experiência de renovação para mim.”
O essencial encontra a síntese
A aproximação entre Denise Stoklos e Dalton Trevisan também tem um aspecto conceitual que Alessandra destaca: ambos são artistas da síntese.
Dalton fez de sua escrita enxuta uma assinatura. Denise, por sua vez, desenvolveu o Teatro Essencial, uma linguagem em que o corpo, a voz e a presença do intérprete são suficientes para construir universos inteiros no palco.
“Dalton Trevisan é um autor da síntese, profundamente sintético e sinteticamente profundo. E Denise é a criadora do teatro essencial. É um encontro imperdível.”
O espetáculo parte justamente dessa convergência entre duas formas de dizer muito com poucos elementos. Trevisan escreveu personagens e situações gigantescas utilizando o mínimo de palavras possível. Denise construiu uma trajetória internacional baseada na potência de um corpo em cena.
O cavalo, Nietzsche e a poesia no ar

O terceiro espetáculo da programação, ‘Nietzsche, do Cavalo Nada Sabemos’, também nasce de um encontro.
Desta vez, Denise Stoklos e Alessandra Maestrini se uniram ao ator João Paulo Lorenzon em um trabalho inspirado pela conhecida história do filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) e de um cavalo que estaria sendo espancado nas ruas de Turim.
“Nós assistimos o Lorenzon e ficamos impressionadas com a força cênica dele.”
A imagem do cavalo e o momento em que Nietzsche enlouquece se tornaram o ponto de partida para uma criação que foi crescendo a partir das contribuições do próprio ator.
Quando recebeu o convite, Lorenzon demonstrou interesse em montar o espetáculo, mas com uma condição: queria a direção de Denise. A resposta foi outra parceria.
“Eu só dirijo com a Alessandra, porque não é a minha especialidade. E aí pensamos: claro, vamos fazer com as duas.”
O processo foi construído de forma colaborativa. João Paulo trouxe temas e materiais próprios, que foram sendo lapidados pelo olhar das duas diretoras.
Para Alessandra, uma das grandes qualidades do artista é a capacidade de fazer o teatro ultrapassar suas fronteiras tradicionais.
“Ele consegue fazer um teatro que, ao mesmo tempo, é artes plásticas. É como se estivesse pintando poesia no ar. A gente se sente imerso em um quadro durante o espestáculo.”
Denise também representa uma referência fundamental para Lorenzon. A relação entre os dois artistas se transforma, dentro da montagem, em uma espécie de homenagem.
“É uma carta de amor à Denise Stoklos, uma das maiores influências do Lorenzon,” explicou Alessandra, que comentou que seu trabalho no processo foi ajudar a construir a presença cênica de João Paulo, organizando marcas, escolhas e a relação com o público, sem apagar a personalidade do ator.
“Entrei para trazer a presença cênica dele, trabalhar as escolhas e garantir que a gente tivesse a personalidade dele, a conexão com o público, os ângulos do corpo e a suspensão do tempo.”
Disciplina, persistência e paciência
Depois de uma trajetória que atravessa tantas linguagens e décadas de palco, as duas artistas também carregam algumas certezas sobre a longevidade de uma carreira.
Alessandra fala sobre a necessidade de cuidar do instrumento que o artista usa todos os dias: o próprio corpo.
“Em primeiro lugar, a gente precisa de uma boa noite de sono. Disciplina para continuar exercitando e trabalhando o instrumento que a gente vai usar.”
Mas, para ela, o cuidado não é apenas físico. Existe também uma dimensão emocional, especialmente diante das cobranças que fazem parte da vida artística.
“É preciso ter disponibilidade emocional e energética e paciência consigo. A gente se cobra demais, trava e não faz nada. É preciso esse abraço, essa ‘automãe’ de si mesma.”
Denise resume sua própria fórmula em duas palavras: disciplina e persistência.
São conceitos que, de maneiras diferentes, atravessam também os três espetáculos que chegam a Uberlândia. Talvez seja justamente esse o ponto que une a programação: a arte como espaço para continuar perguntando, mudando e descobrindo novas formas de usar a própria voz.
Serviço
- O QUE: Uberlândia na Rota das Culturas
- LOCAL: Teatro Municipal de Uberlândia (Av. Rondon Pacheco, 7.070, Tibery)
- CLASSIFICAÇÃO: 12 anos
- HORÁRIO: 20h
- INGRESSOS: entre R$ 25 e R$ 80 à venda pelo Mega Bilheteria (com taxa de conveniência) ou nos pontos fixos, sem taxa de conveniência: loja Inclusive Brechó (Av. Cesário Alvim, 396, Centro) e loja Rei do Quadro (Av. Afonso Pena,1660, Aparecida)
PROGRAMAÇÃO
Quarta-feira (26/08): ‘Yentl em Concerto’ | Com Alessandra Maestrini | Ingressos aqui
Quinta-feira (27/08): ‘Dalton Trevisan, que tinha um cachorro’ | Com Denise Stoklos e Alessandra Maestrini | Ingressos aqui
Sexta-feira (28/08): ‘Nietzsche, do Cavalo Nada Sabemos’ | Com João Paulo Lorenzon | Direção de Denise Stoklos e Alessandra Maestrini | Ingressos aqui