‘Somos produtores culturais, não organizadores de festa’, saiba como o festival Timbre, tem resistido às constantes mudanças no entretenimento sem perder a identidade
Uberlândia recebe neste final de semana, dias 8 e 9 de agosto, mais uma edição do Festival Timbre, que há 13 anos tem deixado sua marca, resistindo às mudanças no entretenimento, no comportamento das pessoas, principalmente pós-pandemia e vivendo um ano de cada vez. Em um final de tarde de junho o Uberground se encontrou com Gabriel Caixeta (também conhecido como Bibi), produtor da Timbre Cultural e idealizador do festival. Conversamos sobre passado, presente e futuro na esplanada do Teatro Municipal, novamente palco do festival, que também conta com a Eventaria Produções.
Para que você saia de casa para curtir cerca de 50 atrações em três palcos dessa edição, de nomes consagrados como Iza, Lenine e Samuel Rosa a novos talentos como Duquesa e Reggae Brasil e regionais como Pedro Antônio, teve muito trabalho desde o final da edição de 2024. Neste ano o Timbre é apresentado pela Vivo com patrocínio da Cemig, entre outros apoiadores, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais.
E para você ver todas as cores, ouvir todos os sons e se divertir com seus amigos, ou mesmo sozinho, tem muita burocracia envolvida e os bastidores dessa complexa cadeia foi um dos tópicos da conversa do Uberground com Gabriel Caixeta. Abaixo a programação do festival e na sequência os principais trechos da entrevista. Quando você terminar sua leitura pode ter certeza que o Timbre 2026 também já começou!
SERVIÇO
O QUE: Festival Timbre
QUANDO: 8 e 9 de agosto
ONDE: Esplanada do Teatro Municipal de Uberlândia (Av. Rondon Pacheco, 7.070, Tibery)
INGRESSOS: de R$ 25 a R$ 260 (alguns lotes já estão esgotados) confira disponibilidade no Ingresso live ou na bilheteria do evento
MAIS INFORMAÇÕES: site do Timbre
PROGRAMAÇÃO

ENTREVISTA
UBERGROUND: Gabriel, quando você olha para o espaço dessa esplanada em um fim de tarde como esse, ainda sem toda a estrutura que envolve um festival como o Timbre, o que você enxerga? O que está passando pela cabeça do produtor antes de receber milhares de pessoas e dezenas de artistas em seus palcos?
GABRIEL CAIXETA: A esplanada do Municipal é um espaço apropriado para o Timbre, mas ele tem seus desafios, ele tem suas dificuldades. Quando a gente começou a fazer o festival, a gente nunca imaginou que ia deixar de usar o palco que chamamos 360º (foto abaixo), onde realizamos outras edições. Foi o que nos levou a pensar esse outro formato, a solução que encontramos foi sair do palco do municipal em si e montar uma estrutura nova no estacionamento.

No ano passado vocês passaram por um momento muito difícil com aquele temporal imprevisível que causou danos por quase toda a cidade. Felizmente, foram somente danos materiais, o que comprova a efetividade dessa mudança, e, principalmente, os cuidados na pré-produção.
Nós temos que pensar na segurança de todos: público, músicos, equipe técnica, trabalhadores em geral, precisamos pensar em tornar a experiência agradável para todas as pessoas, independentemente se estão aqui para trabalhar ou para curtir. Em 2024 se os shows estivessem acontecendo no palco 360º poderia ter danificado alguma coisa. Enfrentamos outros problemas com chuvas em outros anos, o mais sério em 2018, quando chegou a molhar o palco. Com o tempo, a utilização dele passou a ter regras mais restritivas. Se antes tínhamos o palco 360º e um outro montado em frente, adotamos o sistema LCR (Center, Left, Right) que comporta dois palcos, um ao lado do outro, possibilitando um show após o outro com a mesma qualidade sonora. Conheci e experienciei esse formato em Belo Horizonte antes de trazer pra cá porque comprovei que seria bom para agilizar as passagens de som e troca de bandas. E a cada ano a gente segue inovando, como o uso de telões, que no ano passado agradou muito. Outra novidade deste ano é a house mix de dois andares.

Com os shows do ano passado cancelados no primeiro dia do ano passado, você acredita que 2024 foi uma provação para vocês? Por mais que as circunstâncias tenham sido difíceis, acho que comprovou que vocês estão bem estruturados, têm o apoio que vocês precisam. Além da produção do Timbre em si, quais instituições precisam dialogar para realizar um evento seguro?
Esse é um processo muito cuidadoso, sabe? Por isso é imprescindível ter um calendário rigoroso a começar pelo edital para a utilização do espaço público. Quando o espaço é liberado precisamos também da liberação de diversas secretarias da Prefeitura de Uberlândia. Para isso precisamos estar com croqui e mapas prontos. Pode ter muita gente que acha que por ser um evento cultural só precisamos conversar com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, mas não é. Precisamos conversar com outras, aprovar documentação com as secretarias de Trânsito e Transportes, de Finanças, de Serviços Urbanos, entre outras só na esfera municipal. Além disso é preciso solicitar a liberação do Corpo de Bombeiros e comunicar também às polícias Militar e Civil. São muitos os laços que tornam um evento como o Timbre possível, todos são importantes dentro de suas atuações.
Com a concentração dos shows na área do estacionamento, a esplanada passou a ter espaços mais interativos para o público e mais interessantes para os parceiros e patrocinadores, sem deixar de lado a programação artística.
Esse espaço também abriga a área de alimentação, stands dos parceiros e muitas ações voltadas para sustentabilidade e tem um grande movimento. É um ótimo espaço para uma atração que fez muito sucesso em 2024, o palco Sesc Hip Hop que receberá atração nas duas tardes com grafite ao vivo, breakdance, slam, discotecagem e diversos shows, como: Vaine convida Lechaydrunk, Lucas Grilo, Filho da Bruxa, Ray, Polly Magalhães e muitos outros. Pela primeira vez teremos a final oficial do Slam na escadaria do Teatro Municipal que vai reunir poetas e performers do Brasil.
Já teve algo que o espaço não permitiu fazer?
No ano passado, um patrocinador queria colocar um balão aqui, e a área de segurança do balão era maior que a área do palco.
O Timbre trabalha para ser um festival inclusivo, acessível e amigável. Já tem atualmente no line up 50% dar artistas mulheres e acolhe a comunidade LGBTQIA+. Quando vocês fecham a programação, as bandas locais e regionais recebem o mesmo tipo de tratamento dos artistas renomados? Faço essa pergunta porque em mais de duas décadas de atuação nessa área ainda percebo que existe a prática do “tocar por divulgação”, ou seja, músicos sem contrato e sem remuneração. Como funciona isso no Timbre?
Todos os artistas têm contrato e têm acesso à uma mesma infraestrutura, mas precisamos estar atentos às demandas. Camarim, por exemplo. O Samuel Rosa tem uma equipe de 20 pessoas, às vezes vamos precisar de mais de um camarim para acomodar todo mundo, então temos que ir ajustando ao longo de cada dia, mas todo artista pode contar com nossa equipe durante todo o festival. Às vezes, por conta do grande número de apresentações, não vamos conseguir passar o som de todo mundo igual, com duas horas para todos, mas sempre teremos ali, uma horinha que seja para que ele chegar, montar e salvar a cena.
Acho importante também para os artistas, principalmente aqueles que estão começando, conhecerem um pouco desses bastidores, do DNA do festival e às vezes aparecerem menos, mas aparecer bem, com uma boa estrutura, pode gerar novos e melhores contratos no futuro. Então, me fala, por que uma banda pode se interessar por tocar no Timbre?
É um festival sério e parte dos nossos artistas são contratados pelo nosso projeto, que é via Lei de Incentivo. A gente fala para o Estado que vai dar oportunidade, mostra a remuneração que daremos para esse artista e o Estado precisa saber quem são, precisamos discriminar tudo para ter aprovação. No domingo temos muitos artistas contratados dessa forma, assim como também temos artistas contratados com recursos próprios, como grande parte das atrações de sábado. E quando a gente faz o projeto a gente deixa discriminado. Então, nós contratamos e pagamos cachê. E, novamente, é importante reforçar a disponibilidade dos técnicos para as bandas. Acontece de ser o primeiro show da banda, o pessoal pode chegar sem saber o que é um rider tech, por exemplo, e a gente vai ter alguém para explicar.
Como é a divisão do trabalho, em torno de quantas pessoas gira a equipe do festival?
Trabalhamos de forma setorizada. Por exemplo, hoje a minha equipe no dia, que é o atendimento, que é a parte do palco, nós temos, tem cerca de 12 profissionais técnicos, que são os profissionais do som. Temos ainda a turma dos painéis, com dois, e ainda contrato cerca de 30 pessoas para o atendimento e outros setores. No marketing são 15 pra fazer a cobertura e a produção do espaço também, tem os responsáveis pela alimentação, os responsáveis pelo bar, pela limpeza, pela equipe de segurança. Nos dias de evento passa de 100 pessoas, na última reunião de alinhamento é que a gente consegue ver, quando estamos bem aqui nessas arquibancadas, a dimensão de quantas pessoas estão envolvidas, mas é muita gente.
É perceptível que vocês têm responsabilidade no que vocês estão fazendo. E por mais que você já tenha percebido que esse espaço parece que já está ficando pequeno para o Timbre, você vislumbre um outro espaço para daqui a algumas edições?
Tem que sentir o mercado a cada ano. Esse espaço ainda pode ser expandido, quem sabe? Eu não digo, por exemplo, que o estádio Parque do Sabiá [que já recebeu o festival Triângulo Music e shows como da banda irlandesa A-Há e do DJ francês David Guetta] é uma opção no horizonte próximo, mas é uma opção que pode vir a ser um futuro. Se a cidade der mais condições para aquele espaço ser utilizado porque a questão não é só levar mais gente, é dar estrutura para as pessoas porque ainda temos um público muito urbano, percebemos isso quando tivemos que levar o festival para o Castelli no ano passado, muita gente desistiu de ir.
Como você vê o papel do Timbre dentro da cena cultural de Uberlândia?
Um ponto importante de reverberar é que não somos organizadores de festa, somos produtores culturais e fazemos um festival que sai de uma edição já pensando na outra. Seis anos atrás eu esperava entrar grana, correr atrás do incentivo para depois começar, agora não dá mais para fazer isso. Há situações como artistas que quero muito trazer, porém, eles fazem dois shows por mês, e não podemos esperar para negociar. Assinei um pré-contrato só para ter direito a negociar a agenda do artista em agosto de 2026.
A gente não para, fica o tempo todo por conta do festival, mesmo comigo morando em São Paulo, onde articulo melhor a programação e enquanto isso tem gente aqui estudando a melhor forma de projetar o som para não incomodar a vizinhança, são muitos detalhes e é importante que as pessoas entendam que o Timbre é um festival cultural para Uberlândia e queremos que seja enxergado dessa forma também pelo poder público. Nesse ano conseguimos um diálogo melhor a ponto de sermos recebidos pelo prefeito [Paulo Sérgio] e alguns de seus secretários.

Dentro da economia da cultura não é só o setor cultural que ganha.
Nosso custo de produção é elevado, mas também gera renda para a cidade, podem perceber pela ocupação da rede hoteleira nos dias do festival. Os artistas que contratamos pagam o Imposto Sobre Serviço (ISS) local, então a cada nota vai uma porcentagem para o município e prestamos um serviço de qualidade para um público cada vez mais exigente. Quem viaja para outros festivais em outras cidades percebe que Uberlândia não está ficando para trás. A pandemia mudou o comportamento das pessoas, hoje em dia elas escolhem mais na hora de sair de casa porque ficaram dois anos sem essas experiências e acabaram descobrindo como se divertir também em casa e por isso investimos em uma boa programação. Eu não imaginaria há uns anos atrás estar negociando a vinda de uma artista como a Iza, por exemplo, uma artista gigante.

E como você percebe o interesse dos artistas consagrados nacionalmente pelo festival?
É uma reputação que vai se construindo. Ano passado tivemos o Seu Jorge de volta na cidade para um show depois de muitos anos e fez um show gigante, não queria sair do palco. Temos um cuidado e um carinho especial com esses artistas que entregam seu melhor para o público. Essa é uma forma muito boa de convencimento dos artistas. Alguns, como a Marina Sena, que se apresentou aqui em festa de república universitária e anos depois está na lista das melhores cantoras do país. Ela esteve por dois anos seguidos no festival e o público segue pedindo.
Você se sente confortável com o que o festival alcançou?
Olha, não dá… é engraçado, mas é uma luta a cada ano, não sabemos o que o futuro nos reserva mas temos lutado bastante para manter o que conquistamos e crescer ainda mais, com responsabilidade. Queremos oferecer uma experiência agradável, em um lugar confortável. Muito se fala hoje no papel dos festivais. Você pode chegar em uma área com mais estímulos, na edição desse ano do João Rock tinha até tirolesa, roda gigante, você chega em qualquer festival em São Paulo e tem essas coisas, mas nós ainda estamos nisso pela música. Tem espaço para a galera fazer foto legal, pro patrocinador mostrar a sua marca, se envolver com o público, é muito importante pra nós tudo que acontece aqui mas a música estará sempre em primeiro lugar. Outra coisa é que sempre ouviremos o nosso público e vamos manter nosso compromisso como um evento acessível e verdadeiramente inclusivo.